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Adoção: Capítulo I – Fazendo as malas

Ter uma filha adotiva era um sonho.

Para mim, a história era a seguinte: minha criança, Perci e eu combinamos de nos reencontrarmos nesta vida.

Por impossibilidade de termos filhos biológicos, nossa filha viria por outra forma, demonstrando já de cara seu imenso amor e generosidade. Baita malabarismo esse para chegar até nós.

Juntos, percorreríamos um caminho até que isso acontecesse, na hora exata em que estivéssemos todos prontos, em absoluta sincronia.

Romantismo? Pois foi assim. E tenho tanta certeza que chego a rir da crença sobre a aleatoriedade da vida.

Já era a Laura. Sempre foi.

Se acredito no acaso? Claro! Para a marca de suco nova porque a preferida estava em falta, para a gasolina que acabou porque sou distraída…

Aos 37 anos começava minha viagem. E a Laura, a dela.

Às vezes imagino que ao começar a fazer nossas malas para nos reencontrarmos, conversamos muito à noite, enquanto eu dormia. Fizemos planos, contei seus apelidos, combinamos a cor do seu quarto, se eu deixaria passar batom logo cedo…

Uma coisa que adorava em tudo isso? Não saber como seria essa garotinha. Gostava de imaginá-la de vários jeitos, como se isso fizesse parte da surpresa. Gordinha, morena, magrinha cabeluda, séria, risonha. Nos meus melhores sonhos não imaginava que anos depois chegaria em meus braços um bebê tão encantador como a Laura. Bem, falarei muito sobre ela, mas depois.

Com tantos filhos adotados, o Perci desconhecia o processo nos dias de hoje, as coisas mudaram muito…e eu, sabia menos ainda.

O primeiro passo foi procurar o Forum de Cotia, cidade onde residimos.

Por puro preconceito, fiquei insegura em ter que dar entrada em Cotia. Sabe aquela coisa? Se em São Paulo as coisas são como são, imagina aqui? Putz, nesta hora queria morar ao lado da Praça João Mendes.

Outro medo foi o sonho da minha vida depender do Governo. Sou brasileira e, como muitos de vocês, descreio do país, da correção das coisas por aqui. Será que o tal cadastro nacional funcionava? Será que a Assistência Social não botava um dedinho na hora de encaminhar uma criança? Simpatia por um ou outro casal não interferia de verdade no processo?

Além disso, com todo respeito aos amigos funcionários públicos, sempre trabalhei no setor privado e, de fora, a impressão que a gente tinha é a de que nada funcionava. O ritmo pautado por recessos, troca de juízes e até as dependências do Fórum, decadente, com a sua papelada empilhada e aparente, tudo era um grande gerador de ansiedade. Desse jeito tartarugas escapam. E se minha filha escapasse?

Demos entrada na intenção de adoção, preenchendo formulários relativamente simples, que seriam depois protocolados e resultariam em uma entrevista com uma psicóloga. Tudo naquele ritmo que vocês conhecem.

Perci e eu somos dois controladores por natureza, mas aceitar o processo como ele se apresentava, resignar-se, confiar, foi a única saída.

Neste momento minha irmã me ajudou com uma pergunta: E por que é que você acha que ao tentar engravidar as coisas estão sob nosso controle?

Sabedoria de mãe de cinco filhos.

No próximo post conto mais!

Logo a gente se encontra, meu amor.

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Amor em 4 atos. Quarto ato: Pequena Laura

 

Ele sentia como se procurasse uma criança que lhe pertencesse, e como se a tivesse perdido algures num passeio por distracção e faltasse apenas reencontrá-la. Era como se a criança o pudesse prever, ansioso na busca, ansioso no amor.

Trecho do livro O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe.

Quando me casei com o Perci não pensei na questão da maternidade. Só me casei por amor e pronto.

Nosso casamento também aconteceu muito rápido, sem planejamento e o dia a dia nos engoliu com as mil responsabilidades sobre a casa e os enteados.

Perci e eu temos o que ele chama de self service de problemas de fertilidade. Para ele seria impossível ter um filho biológico e, para mim, significaria um longo e sofrido tratamento.

Todos os filhos do Perci eram adotados e eu amava a ideia da adoção. Aliás, sempre me vi adotando uma linda menininha, nas minhas intuições da infância. Mas talvez porque o processo de adoção seja complicado e leve tempo, isso não passava pela minha cabeça a esta altura das nossas vidas.

O fato é que quando assumi a criação dos filhos mais novos do Perci achei que era disso que se tratava, dos filhos dele. Era tudo tão lógico… A história fechava.

Só um detalhe não se encaixava. Sentia uma saudade de alguém que não conhecia, a falta de uma menininha específica, como se eu tivesse alguém muito amado distante de mim, uma peça que faltava na vida.

Na infância sonhava muito com ela, a tal menina, e mesmo acordada procurava por ela na pracinha da rua, na minha primeira escola. Lembro-me da frustração que sentia ao não encontrá-la e no fato de que ninguém conseguia entender bem o que eu dizia e me ajudar.

Cresci e me esqueci do assunto. Somente anos depois, adolescente, em um dos vários centros kardecistas frequentados pela minha família, sem que eu sequer mencionasse o assunto, me falaram da tal menina. Uma filha.

Foi em uma varanda com vista para montanhas, logo após o almoço no nosso hotel favorito. A pergunta que mudaria minha vida para sempre.

Não acreditei na grandeza daquele coração, na capacidade de entender o que eu mesma não processava, minha imensa vontade de ser mãe.

Perci me convidava para ter um filho, para adotarmos nossa criança.

Começava ali uma longa viagem até a chegada da Laura, nossa filha querida. Longos 5 anos de espera, recheados de acontecimentos, reviravoltas e sentimentos.

Sim, dividirei a experiência da adoção com todos vocês. Mas por hoje fico por aqui, é muita emoção de uma só vez!

Nossa linda menina

 

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Amor em 4 atos. Terceiro ato: Máscara de oxigênio, please!

Ao mesmo tempo em que conhecia o Perci, pelo trabalho, não sabia muito da vida dele.

Só que era uma cara atraente, íntegro, generoso e espirituoso. Mas daí a ser um chato na convivência… Só o tempo diria.

E o mesmo valia para ele. Eu era apenas a garota, já não tão garota assim, de quem ele gostou um dia.

Hoje reconheço a coragem dele. Trazer-me para junto de seus filhos, sabendo o impacto que isso teria na vida deles, mesmo sem o tempo necessário para que me conhecer realmente. Eu tinha arriscado, mas ele, muito mais.

Felizmente, a coisa foi dando certo, muito certo, na verdade. Junto com o amor veio a boa surpresa da mesma crença de vida, gostos e planos de futuro.

Com ele aprendi a diferença entre amar e gostar. Vocês sabem como às vezes amar alguém de quem não se gosta como pessoa pode trazer sofrimento.

Tudo era lindo no amor, mas a vida do Perci era uma complicação. Ele bem que me avisou no Nhoque! E eu nem dei bola.

Três dos cinco 5 filhos moravam com ele (aos poucos vieram todos), mais a cozinheira, fora o público flutuante: outras filhas, babá de final de semana, por aí vai. Uma loucura de gente, de barulho, bem diferente da minha vida de solteira na Vila Madalena. Para uma conversa a sós era preciso esperar a casa dormir!

Era óbvio que se a coisa evoluísse para morarmos juntos eu teria que brincar de casona.

Topei, desde que a mudança tivesse um certo ritual, pelo menos uma data simbólica. Nada dessa coisa de ir chegando aos poucos, sem querer querendo.

Fechamos com a segunda-feira seguinte.

Já contei que havia me divorciado há relativamente pouco tempo e, no último ano em questão, reorganizei minha vida, redecorei minha casa, sem imaginar que em breve me casaria novamente.

O fato é que em tão pouco tempo, depois deste esforço, desmontar minha estrutura, me mudar para uma casa que não tinha a minha cara, com várias pessoas também quase desconhecidas pra mim, com hábitos e rotina tão diferentes me deu um certo pânico.

A sensação era de diluição, inclusive das minhas coisas que, espalhadas na nova casa muito maior, desapareceram.

Na segunda-feira escolhida abri a porta de casa ao chegar do trabalho e vi que o Perci ainda não havia chegado. Sentei-me no sofá e fiquei olhando pra parede. Liguei a TV mas não conseguia me concentrar. Ia dizendo oi pros que chegavam aos poucos. E a sensação era de ser uma visita.

Isso estava ficando muito perigoso. Precisava mudar minha atitude ou me sentiria uma hóspede em meu próprio lar.
Na beira do desespero, surge a luz! Ou melhor, a Cleia.

A Cleia era uma dessas cozinheiras de mão cheia, uma senhora bonachona, de meia idade, lenta, com aquela sabedoria da gente simples. Havia sido confeiteira da Brunella e trabalhava com o Perci há anos. Não me parecia contrariada com a minha chegada. Muito pelo contrário, estava dando graças a Deus.

Olhava pra ela e via a imagem da boia em alto mar, da escada de incêndio, da máscara de oxigênio…
A cozinha, claro! Sempre um bom começo.

Me apoiei na mulher, que não desconfiava de nada, e simulando total segurança, resolvi o cardápio da semana.
A partir daí a coisa andou. Nada como começar pelo coração da casa.

Às vezes a gente precisa, não é?

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