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De olho no vizinho

Na vida há duas certezas, o nascimento e a morte, a elas eu acrescento mais uma: vizinhos.

No berçário da maternidade tive os meus. Não me lembro de nomes, pela breve convivência e neurônios ainda em formação, que não me permitiram grandes conexões na época.

Mas lembro-me bem dos meus vizinhos de infância e juventude. Com um certo romantismo sim, afinal essa é uma das vantagens da distância do tempo.

Havia os da simpática vila de sete casas geminadas, em Pinheiros. A família da casa 4, um casal de japoneses e sua filha, que regulava em idade comigo. Como eram educados, gentis, discretos e como aquela menina, ainda criança também, era pura meiguice.

Foram eles que me apresentaram uma coisa fantástica: pequenas árvores comestíveis, cor creme. Demorei um bom tempo para descobrir que as tais arvorezinhas também eram vendidas no supermercado. Até isso acontecer, pensei que naquela casa se comia magia.

Também me lembro da Tia Leila, da casa 1. Uma mulher dos seus vinte e tantos anos, que a mim pareciam bem mais porque quando se é criança tudo é maxi, tudo é multi.

Mãe de duas pequenas crianças mal educadas, aquela mulher era linda para mim. Longos cabelos platinados, unhas pintadas de branco, à moda da década de 70, pulseiras de corrente e um delicado perfume que se misturava com o odor dos seus cigarros Charm. Para aumentar minha admiração, Tia Leila era professora de música, tocava lindamente seu piano.

Tia Leila às vezes me dava carona na volta da escola, onde as crianças da vila estudavam, ao som do Roberto Carlos. Ainda criança, dava para sentir que a emoção excessiva com a trilha sonora tinha a ver com uma infelicidade que ela não conseguia disfarçar. A ingenuidade da época não me deixava entender as razões da tristeza naquele olhar.

Anos depois sua família se mudou para o interior e perdemos contato. Outro dia, fui atrás dela pela internet, sem sucesso. As poucas pistas que encontrei sugerem que ela já faleceu.

Na casa 5 havia uma mãe solteira, imperdoável para a época. A moça, meio hippie, com chinelos de couro e calças Lee, criava seu filho na casa, juntamente com seus pais idosos e irmãos já moços.

Um dos irmãos era o amor platônico das pirralhas da vila. Rei, seu apelido, era a cara do Pedro Aguinaga e estacionava um buggy amarelo na vila. Sempre que dava as crianças entravam no carro e brincavam nele às escondidas. Além de bonito, Rei era simpático com a meninada. Dava um sorriso para cada uma de nós, o que só fazia alimentar a nossa paixão.

Na adolescência, minha família se mudou para uma casa esquisita, em uma rua mais estranha ainda: a Rua Tinhorão. Uma rua com casinhas classe média, incrustrada na divisa dos bairros de Higienópolis com Pacaembu, bem ao lado da Faculdade FAAP.

A impressão que eu tinha é de que os moradores dali estavam sempre de passagem, assim como a própria rua, uma curta ligação entre outras duas vias mais importantes do bairro. Por ali, só passava quem pretendia ir a outro lugar.

A Tinhorão era uma mistura de comércio que não ia pra frente com moradores invisíveis. De todos os vizinhos daquela rua esdrúxula, a família da casa ao lado foi a que mais me marcou. Um casal portenho que vendia empanadas no andar de baixo do sobrado, de um jeito bem suspeito.

Para cada cliente que chegava e tocava a campainha (já começa por aí, que empanaderia funciona a portas fechadas?), uma abertura mais que rápida da porta sob olhares assustados dos donos. Meu pai não perdoava: “Um dia a polícia ainda baixa e prende todo mundo”.

No fim, a coisa ficou descarada, nem a placa na porta eles mantinham mais. Somente os olhares assustados e os clientes que desapareciam lá dentro e demoravam horas comendo empanadas. Deviam ser muito boas as danadas. Seriam empanadas mesmo?

Ficamos poucos anos lá e eu dei graças a Deus por irmos embora. Anos depois, uns amigos me convidaram para almoçar em um charmoso restaurante do bairro. Quando chego, era a minha própria casa da rua Tinhorão. Bem, só mais uma das muitas estranhezas daquele ligar. Mas outro dia conto como foi isso.

Adulta, vizinhos já não despertam a mesma curiosidade de quando se é criança, mas continuam a ser famílias, com suas histórias, sonhos e modos de vida. Fico me perguntando como a Laura, minha filhinha de quatro anos, descreverá seus vizinhos um dia. Certamente como eu fazia quando criança, com cores vívidas e o mesmo interesse.

 

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