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Madeleines

Hoje é um daqueles dias em que acordei precisando de colo.

Não sei quanto a vocês, mas para mim, uma coisa que é tiro e queda nesses casos, e que faço instintivamente, é buscar aconchego nas minhas memórias olfativas.

Da minha memória olfativa vem um punhado de lembranças, geralmente lá da infância. Tendo-se a sorte de um bom destino, as lembranças da infância costumam ser boas e aquecer o coração, dando a devida dimensão para os problemas que nos afligem no presente.

Sempre fui apaixonada por perfumes e glutona por natureza, talvez por isso minha relação com fragrâncias e aromas tenha sido sempre tão intensa.

Meu primeiro perfume ainda criança foi uma daquelas lavandas caseiras, em vidrinho com tampa de rolha, enfeitado com ramo de sempre viva e laçarote roxo. Não que fosse bom, na verdade era ruim que só, ácido e volátil a ponto de evaporar em poucas semanas. Mas era especial, era meu. Guardei por anos a fio aquele vidro vazio, até que dele não saía mais absolutamente nada.

Fui evoluindo e, pouco tempo depois, herdei uma colônia Charlie, fortíssima e totalmente inadequada para uma criança. A colônia era anunciada na TV e febre na década de 70. Também não a usava, era enjoativa, mas adorava ter perfume de mulher na penteadeira.

Nos anos 80, Giovanna Baby, uma lavanda macia e talcada, me acompanhou por anos a fio na passagem da infância para adolescência. Não era barata, mas valia todas as minhas economias. Jorrava o perfume no pescoço e ia feliz da vida para a escola.

Com o primeiro salário de estágio, Quartz, de Molyneaux, entrou na minha vida. Um luxo ao qual fiz questão de me dar porque batalhava muito, estudando e trabalhando. Era o perfume que simbolizava meu decolar na vida. O início da minha ascensão.

Depois veio Beautiful, da Estée Lauder, que usei por muito anos e os Armanis, meus preferidos sempre.

Há também perfumes de outros, com lugar reservado nas minhas lembranças. A colônia mentolada do meu avô, embebida em seus lenços para qualquer emergência acalorada, o cheirinho de banho tomado da minha avó, todo final de tarde, o sabonete Phebo preto do meu pai, o cheirinho doce e suave da minha filha.

Tanto gosto de perfumes que um dia acabei trabalhando no Marketing da Firmenich, uma Casa de Fragrâncias Suíça, inventora de grandes sucessos do mercado. Lá conheci como se criam os cheiros que fazem parte das nossas vidas.

Mas nem só de perfumes vive minha memória olfativa. Outro dia, me peguei sentada na mesa da cozinha, ensinando minha filha de 4 anos a mergulhar biscoito Maizena em uma xícara fumegante de Matte Leão. Ela não se animou muito, porque não visualizou a cena de seis irmãos pequenos, sentados ao redor de uma mesa de jantar em uma casinha de vila. Todos ceando antes de dormir. Em pleno inverno, juntos, com nossa mãe. Cena que eu nunca mais vi pois cada um foi viver longe e a possibilidade disso voltar a acontecer é mínima.

Outros aromas também visitam minha memória. Quase todos trazidos pelas mãos da minha mãe e minha avó. Biscoitinhos de nata, torta de maçã, pão de minuto…

Às vezes me pergunto, que perfumes e aromas farão parte da memória da minha filha? Um deles, certamente será o do meu travesseiro, que ela insiste em usar todas as noites em sua cama.

 

Este trecho de Proust é a mais linda expressão do que um aroma é capaz de fazer com nossos corações:

…É assim com o nosso passado. Trabalho perdido procurar evocá-lo, todos os esforços da nossa inteligência permanecem inúteis. Está ele oculto, fora de seu domínio e do seu alcance, nalgum objeto material (na sensação que nos daria esse objeto material) que nós nem suspeitamos. Esse objeto, só de acaso depende que o encontremos antes de morrer, ou que não encontremos nunca.

Muitos anos fazia que, de Combray, tudo quanto não fosse o teatro e o drama do meu deitar não mais existia para mim, quando, por um dia inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra os meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei por quê, terminei aceitando. Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena.

Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou antes, essa essência não estava em mim; era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal.

De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligado ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde aprendê-la? Bebo um segundo gole em que não encontro nada demais que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida. É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim…

Livro: No Caminho de Swann (Mais famoso como o trecho das Madeleines)

 

 

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