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Diário de regressão- Capítulo II

Se você é dessas pessoas que não acredita em almas velhas, com vidas sucessivas neste planeta, talvez vá tomar estas crônicas de regressão como estórias de uma mente criativa. Não há problema. Divirta-se e, se não for pedir muito, não me veja como uma maluca irrecuperável.

Mas se você é como eu, crente sobre reencarnações, siga minhas regressões e veja como se passaram alguns acontecimentos de uma de minhas vidas pregressas.

No primeiro capítulo das Crônicas de Regressão (recomendo aos interessados uma visitinha ao post anterior) contava a vocês sobre a primeira sessão. É justamente daí que retomo a narrativa.

– Um, dois, três. Vá! Foi o comando recebido, ao qual eu obedeci .

Que estranha sensação essa. Sou maior, alta e corpulenta. Não, não é nada disso. Meu corpo é de um homem. Minhas roupas são um uniforme de guerra, medieval, pesado. Uso um daqueles coletes de malha de aço, botas, elmo. É simplesmente incrível a sensação de sentir-se em outro corpo e saber-se você mesma. Tão eu mesma quanto a que sou hoje.

Mesmo sabendo-me eu, sinto curiosidade e isso me faz demorar alguns segundos no tom da minha pele, no porte do meu corpo, na cor do uniforme.

Rapidamente a psiquiatra percebe a necessidade de agilizar a viagem e solicita que eu explique quem sou e o que faço ali.

Vejo-me caminhando no topo de um castelo prestes a ser invadido. Sinto um vento frio batendo no pouco do meu rosto que está descoberto. Posso sentir a tensão no ar, o cheiro do medo. O silêncio é grande mesmo com tantos homens perfilados, deitados, em suas posições. São centenas deles em uma fileira cinzenta a perder de vista.

Sou claramente a pessoa no comando ali. De onde estou consigo ver um amplo campo verde à minha frente com árvores mais fechadas ao fundo. A qualquer momento surgirá um enxame de soldados no horizonte. Não sei em que lugar do mundo estou, mas pelas roupas sei que estou na Idade Média.

– O que você sente? A terapeuta pergunta

Sentia desalento e cansaço. Certeza de que todos, sem exceção, morreríamos ali, sem chance alguma contra o inimigo mais numeroso. Mesmo assim, não sentia medo. Sentia um desapego pela vida, o desejo de que tudo acabasse logo. Algo tão impensável de eu sentir nos dias de hoje!

Olhava meus homens, com frieza, sem que suas mortes significassem grande coisa já que a minha própria também não importava.

– Mas por que você está chorando, então?

Neste momento percebi que eu chorava copiosamente na hipnose. O quanto de solidão havia naquela cena, o quanto eu me sentia sozinho naquele mundo. E que por isso talvez morrer naquela situação não fizesse diferença.

– Ok. Ao ouvir o três, avance para a próxima cena. Um, dois, três…

Estou descendo uma escada do castelo, apressado, tomando cuidado, pois não há muita luz e os degraus são úmidos e escorregadios. Consigo ver minhas pernas, botas, alternando-se pelos degraus. Estou ansioso, ninguém pode me ver. Atrás de mim sinto a presença de alguém, não alguém hostil, alguém que segue minhas ordens.

– Quem é essa pessoa com você?

A cada pergunta feita, uma cena diante de mim, para explicar, contextualizar o que acontece. Flashes rápidos. Na regressão é assim, as cenas surgem para responder às perguntas que nos são feitas e não para compor uma história linear. O talento do terapeuta fazendo as perguntas certas faz grande diferença para o entendimento do enredo.

– Meu pajem (para quem não sabe, pajens eram garotos aprendizes que acompanhavam cavaleiros, soberanos e nobres).

A figura do menino, também uniformizado, desperta uma onda de carinho no meu coração e paro de chorar.

– O que foi? Por que você está sorrindo?

– É o garoto. Espero que consiga sobreviver e se cuidar sozinho depois que tudo isso acabar.

Ao mesmo tempo em que dizia isso assistia várias passagens entre nós, situações em que eu o treinava, em que ele me assistia como fiel ajudante. Tudo muito rápido, em segundos.

Meu bem querer pelo menino era grande, assim como a pena que eu tinha dele, de sua vulnerabilidade naquele mundo cruel. Seu destino seria morrer ou sobreviver sem minha proteção daí em diante.

– O que você faz nesta escada. Aonde vai?

A pergunta dispara a próxima cena. Vejo-me apressando o garoto, para descermos o restante dos degraus, preocupado  que ele não seja visto comigo, fazendo algo ilícito.

Ao final da escada, um salão imundo, sem absolutamente nada, a não ser uma moça presa em correntes, ao chão. Vejo seu vestido e sei que se trata de alguém da nobreza. Não consigo enxergar seu rosto.

A moça está quieta, resignada e não faz nenhum barulho ao nos ver no pé da escada.

Vou descrevendo a cena à psiquiatra, que segue me fazendo perguntas:

– Por que ela está aí?

Outra cena. Um bispo católico, um homem velho, ditando uma sentença. Em frente a ele, a moça, que, por algum motivo, foi condenada pela Igreja.

Por que estou ali? Para soltá-la contra a determinação do senhor do castelo e do bispo, claro.

Por que? Conheço a moça? Gosto dela? Essas foram as perguntas da médica.

Não, não a conhecia. Simplesmente decidi que a moça não precisava morrer em uma batalha pois ela nada tinha  ver com isso. Bondade?

Sinceramente não. Só achei que não fazia sentido. E porque eu não simpatizava com a Igreja, me dava prazer contrariá-la. Só isso.

A volta ao topo foi apressada. Na cena seguinte, me vi novamente caminhando através dos homens até que um empurrão me lançou lá do topo.

Não cheguei a sentir a queda e nem a entender o porquê do atentado durante a hipnose. Talvez tivesse sido punido pela traição, talvez tivesse algum desafeto. Isso nunca soube.

O incrível foi que na medida em que esses personagens foram aparecendo, consegui identificá-los um a um.

O Pajem, meu pai desta vida. A moça, minha irmã. O bispo, meu avô materno.
A cada revelação, emoção e clareza sobre a natureza dos meus sentimentos por essas pessoas.

Por meu pai, amor e um senso de responsabilidade que até hoje me leva a ser condescendente com ele, mesmo quando sei que ele está errado. Pela minha irmã, um instinto de proteção e uma relação de amor, que possivelmente começou nesta vida que eu visitei. Pelo meu avô, uma antipatia impossível de ser transposta mesmo após nossa longa convivência. Aliás, antipatia que sempre foi recíproca.

E também entendi que minha relação com a Igreja Católica nunca foi boa. Desde criança, evitei Igrejas, padres, com certa aflição.

Novas regressões viriam e novamente veria que meu pai apareceria nelas.

 

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