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Emprego por um fio. De Miojo

Eu, 21 anos, recém admitida na Nestlé, no departamento de Pesquisa de Mercado.

Não que fosse minha paixão, pesquisa de mercado, mas acreditava que entender o consumidor me faria uma marqueteira melhor.

Na época, a Nestlé se preparava para lançar seu macarrão instantâneo, tipo Miojo, e nós do departamento nos preparávamos para levar a campo uma pesquisa com consumidores, dessas em que as pessoas provam duas marcas, etc e tal.

O departamento ficava na sobreloja de um prédio velho da Rua da Consolação, tinha bastante espaço e uma ampla cozinha meio separada das salinhas dos analistas, em um anexo do escritório.

A regra era clara, não se podia cozinhar lá, a cozinha era apenas para preparos de produtos que seriam testados. Nossa chefe queria impedir a bagunça, o cheiro de comida, o amadorismo no ambiente de trabalho. E que a cozinha estivesse sempre a postos para qualquer necessidade do pessoal de marketing, nossos clientes internos.

Lá preparávamos as receitas de forma rigorosa seguindo as instruções dos rótulos, respeitando milimetricamente as quantidades e tempos indicados para depois podermos orientar os Institutos de Pesquisa que aplicariam o teste.

Pois bem, chegou o dia em que uma colega e eu, ambas novatas, fomos designadas para nosso primeiro projeto solo. A pesquisa do tal macarrão.  Às 14h teríamos que preparar a receita da Nestlé e do concorrente, para que o Gerente de Marketing e nossa chefe conversassem sobre a pesquisa provando as receitas.

Tenham em mente o seguinte: não éramos Millenials, hierarquia era algo importante. A visita do Gerente e a presença da nossa chefe dava voltas no nosso estômago.

Enquanto os dois conversavam na sala da chefe, minha colega e eu fomos para a cozinha iniciar os preparos.

No caminho, um probleminha.  Um cheiro de frango refogado no ar e, no fogão, as panelas que iríamos usar, cheias com arroz, farofa e outros acompanhamentos de um lauto almoço caseiro. A cozinha parecia tudo, menos profissional. Sabe final de almoço de domingo? Pois é, o cenário era esse.

Bem, paramos um pouco por aqui, pois é preciso contar sobre a Cleusa.

A Cleusa era a secretária da nossa chefe e as duas eram puro contraste. Ione, formal, mais séria. Cleusa, totalmente alternativa, zen, desencanada, um amor de pessoa vivendo quase todo tempo nas nuvens. Usava batas indianas, sandálias de couro hippie, mantinha uma coleção interminável de pedras energizadas sobre sua mesa e defendia o amor livre.

Ao final do dia, depois que a turma tomava seu rumo para casa, a Cleusa defumava o escritório cantarolando mantras com os olhos meio fechados em uma espécie de transe. Eu mesma ajudei muitas vezes no ritual enquanto esperava a hora de pegar o ônibus para a faculdade. Pela manhã, começávamos o dia com o ambiente livre de más influências, graças ao saravá que ela garantia.

A Cleusa lidava que era uma beleza com a Ione. Muitas vezes criava suas próprias regras e ia vivendo numa boa no mundo dela, driblando com sua doçura os possíveis conflitos, sendo muito querida por todos.

Uma de suas insurgências era justamente o uso da cozinha. Frequentemente ela e a Dona Cida, a faxineira, faziam almoços por lá. Eu, aliás, cansei de comer aquela comidinha caseira nos fundos do departamento, às escondidas.

Voltando. Lavamos as panelas mal e mal, do jeito que foi possível, mas na pressa e nervosismo pusemos os macarrões nas panelas com qualquer quantidade de água, no olhômetro, sem cronometrar o tempo de cozimento.

Íamos fazendo como em casa mesmo, experimentando os fios no garfo com a cabeça pra trás, quando fomos pegas no flagra. A Ione e o Gerente de Marketing olhando a cena.

Duas meninas, totalmente atrapalhadas, a cozinha uma bagunça, o cheiro de frango assado….

A bronca foi coletiva, em um paredão onde Cleusa, Dona Cida, minha colega e eu nos enfileiramos esperando o pior. O Gerente de Marketing, gente fina, foi embora remarcando a reunião para outro dia e rindo das duas meninas.

O macarrão foi lançado tempos depois e logo saiu do mercado. O que eu acho? Que teria sido melhor se a embalagem seguisse o nosso modo de preparo. Seria mais divertido, pelo menos.

Alguém está servido?

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Ansiedade no caixa do supermercado

EU:
Enfio o carrinho no corredor do caixa e a coisa já começa.

Aquele frisson de tirar os produtos, colocá-los na esteira, dar bom dia pra moça, falar não 3 vezes pro cliente cadastrado, nota fiscal paulista, CPF na nota, abrir as sacolinhas de plástico que estão sempre grudadas, colocar os produtos planejando bem quem vai com quem na suruba da sacola, tentar achar a carteira na bolsa, pegar o cartão e já deixar a postos, passar o cartão enquanto ainda coloco produtos na sacola, tirar o cartão, tirar o carrinho do caminho do próximo cliente. Ufa!

Isso tudo sabendo que atrás de você tem aquela pessoa pensando em silêncio: vai, minha filha! Anda logo com isso. Tem produto aqui pra passar e você não acha a carteira, não sabia que tinha que pagar? Ela faz aquela cara de tranquilidade, condescendência, mas no fundo quer performance!

Ô vida difícil!

A CAIXA:
Há 7 anos trabalho em um caixa de supermercado aqui da Granja Viana. Lugar chiquetoso mas com um par de gente sem grana, bem, é o que eu acho. Depois conto das compras devolvidas no caixa…

O que impressiona é como as pessoas são iguais, pelo menos pra mim, que vejo todas do meu caixa.
Todos fazem as mesmas coisas. O careca das quintas, a mulher toda trabalhada na academia das segundas, a executiva nervoooosa, o todo simpático galinhão…

É, pra mim não é mole não.

Odeio isso: cliente cadastrado? CPF na nota, débito ou crédito? Pergunto essa sequência infernal pelo menos 75 vezes ao dia. Outra noite fui fazer uma brincadeira com meu marido, na hora H perguntei: CPF….Débito ou…Cliente cadastr….Ops, foi bem mal!

Bem, voltando…

Tem a controladora, que gosta de olhar para tela depois que eu digo o valor, como se fosse enxergar alguma coisa e fica com aquela cara de que tá fazendo conta. Tem o folgado, que finge que esqueceu de pesar os legumes, desse eu tenho raiva! Tem a coitadinha, que pega mais do que pode pagar e fica devolvendo as coisas com cara de: absurdo, tá muito caro! Tem a que não devolve o carrinho, larga no caminho e finge que ele é invisível.

Ai, meu Deus, lá vem a mulher da bolsa verde. Essa é de lascar. Por quê, por quê ela insiste nessa bolsa, essa bagunça ambulante onde não se acha nada! Toca esperar a chata achar a carteira. Tomara que a dona de trás faça aquela cara que eu adooooro. De limão. Ela fica aflita!

Mas até que ela é boazinha. Diz bom dia sorrindo, pesa as coisas como deve, já fala de cara não, não, não pra me poupar das perguntas, e tem uma filhinha que é uma graça!

Fala a verdade, vai. Não é assim com você também?

Momento tenso

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