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A gaveta proibida

Férias de infância sempre rendem boas lembranças, mas duvido que a maioria tenha se iniciado na leitura erótica pelas mãos dos próprios avós, como foi o meu caso.

Não se assustem. Meus avós eram tão pudicos como os de vocês, mas tinham uma neta bisbilhoteira.

Nos idos de 80, havia um sistema de compras de livros por assinatura, uma espécie de Avon literária. Você escolhia os títulos pelas capas e por um breve resumo e a empresa enviava os livros pelo Correio. O máximo da conveniência para a época.

Meus avós eram ávidos leitores, assim como eu. Aos 10 anos eu lia sem parar. Ainda mais na casa deles, onde não havia muita saída.

As noites eram enfadonhas, pois a única alternativa era assistir todos os telejornais, um na sequência do outro, até decorar as notícias e ir dormir vencida pelo tédio. Meu avô General era visceralmente contra novelas da Globo, que considerava má influência.

Eu ia de suspense, romance, policial, ficção a autoajuda, lendo os livros que chegavam e que eram generosamente repassados por eles à neta mais nova, no caso, eu.

Acontece que esses não eram nem de longe os melhores livros. Os verdadeiramente interessantes ficavam bem guardados na gaveta do criado-mudo dos meus avós. Sim, cada um tinha a sua coleçãozinha privada.

Lá eu encontrava as estórias sensualmente provocantes de Bárbara Cartland, a quente coleção de Sidney Sheldon com suas cenas explícitas que eu compreendia apenas em parte e muitos outros livros como Lolita, de Wladimir Nabokov, O Amante, de Marguerite Duras, apenas para citar alguns dos quais me recordo pelo nome.

Era uma aventura. De dia, roubava um livro da pilha escondida na gaveta, à noite lia a obra na penumbra, apavorada, porque caso fosse pega seria meu fim. No dia seguinte, recolocava o livro na mesma posição memorizada rezando para que eles não percebessem.

Li muito nas férias, até que minha alegria acabou. O Círculo do Livro faliu e meus avós deixaram de lado a leitura, provavelmente já cansados das aventuras literárias.

Mas foi aí que a sorte sorriu pra mim.

Quando esperava que minhas incursões clandestinas houvessem chegado ao fim, elas recomeçaram muito melhor. Pela televisão.

Explico. Nas noites de sexta-feira eu podia ficar acordada até bem tarde. Nessas ocasiões, assistia filmes de terror na TV Record com minha mãe, que me acompanhava, já que eu tinha pavor de ficar sozinha com cabeças cortadas na geladeira, morros uivantes, castelos assombrados. Naquela época, terror era assim, mais ingênuo mesmo.

Assistimos juntas toda a série de filmes até que ganhei certa coragem e liberei minha mãe da tarefa de me acompanhar nas reprises que iriam começar.

Passaram-se algumas sextas-feiras assim, até que, sem mais nem menos, a emissora mudou a programação do horário, passando a veicular os clássicos da pornografia brasileira, no lendário programa Sala Especial.

Minha mãe ia dormir tranquila, achando que deixava sua filhinha assistindo filmes de terror, quando, na verdade, o que eu via mesmo era muito Hugo Carvana, Lilian Ramos, Vera Fischer, Nicole Puzzi, David Cardoso, Matilde Mastrangi, Aldine Muller, e claro, Sônia Braga aos borbotões.

Os filmes eram muito mais inocentes do que qualquer minissérie de hoje, mas eram o que se tinha de ousado para a época.

Isso durou uns bons meses, até que, descoberta por um irmão, fui delatada sem dó nem piedade, para nunca mais assistir a um só clássico pornô brasileiro.

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O General e a Romã necessária

Escrever tem me feito voltar à infância. Em um curso recente sobre escrita com a maravilhosa Ana Holanda, editora da Revista Vida Simples, soube que isso é comum. Começamos a abrir as portas para nossas emoções e é na infância que elas se encontram em estado bruto.

Outro dia, observando minha filha de quatro anos e vendo o seu prazer diante de uma conquista, poder subir sozinha a rampa da escola em direção à sua sala, e a enorme felicidade estampada em seu rosto, lembrei-me de quando era criança e senti tal emoção.

Tinha 5 anos e costumava passar as férias na casa dos meus avós maternos, na pequena cidade de Pirassununga, interior de São Paulo. Pirassununga era uma cidade militarizada pela presença de um quartel general e pela Academia da Força Aérea. Por conta disso, tornou-se o destino de muitos militares reformados pela aposentadoria, caso do meu avô, General da Cavalaria.

Caçula que eu era, pouco podia fazer por minha conta, enquanto meus irmãos desfrutavam de maior liberdade, podendo por exemplo ir e vir como lhes aprouvesse.

A casa de meus avós ficava em uma avenida razoavelmente calma, bem no meio de um quarteirão arborizado e todo final de tarde meu avô ia até a calçada tomar um pouco de ar fresco. Esse era o único momento do dia em que eu costumava acompanhá-lo.

Meu avô general era ranzinza, tinha pouca paciência com crianças e psicologia à moda antiga, pouco papo e muito mando.

Sua grande batalha no verão era perseguir moscas com uma pazinha plástica, já que elas demonstravam clara preferência por ele. De quando em quando, juntava-se perto dele um monte considerável dos restos da batalha, que ele recolhia com um misto de raiva e orgulho. Seu nível de irritação com as voadoras ia subindo ao longo do dia, de forma que a partir do início da noite era aconselhável ficar a certa distância dele.

Mesmo assim, sujeita ao seu mau humor, eu nunca não faltava ao nosso compromisso diário. Tomava um banho perfumado, caprichava no vestido, pegava minha bolsinha de plástico com furinhos, devidamente abastecida com balas e chicletes, e permanecia ao seu lado vendo o movimento do final de dia, não sem pedir frequentemente para dar uma voltinha por minha conta até a esquina. Pedido sempre feito e devidamente recusado.

Um belo dia, para minha surpresa, distraída olhando os carros, ouço uma voz de comando:
– Se quiser, vá até a esquina e volte. Estarei aqui olhando.

Não pude acreditar! Estufei o peito, arrumei a bolsa no ombro, e fui caminhando com independência e orgulho até a esquina. Passei pela casa vizinha, da Dona Elícia e Tenente Reducino e seus três poodles irritadiços, cumprimentando-os com naturalidade, como se aquilo fosse um passeio trivial. Mais duas casas e pronto.

Fui e voltei algumas vezes por este trajeto, esticando ao máximo o prazer, diminuindo a velocidade à medida em que me aproximava do meu avô. Nos dias seguintes, rezava para não chover, assim, o prazer vespertino estaria garantido.

Até que comecei a sentir que faltava um propósito para aqueles passeios.  Foi quando me lembrei de que na casa da esquina havia um pé de romã, fruta que, aliás, sempre achei azeda e sem graça. Mas para aquela situação, ela tinha serventia.

Passei a incorporar uma tarefa diária às caminhadas: tocar a campainha da casa, onde morava um velhinho simpaticíssimo, e pedir uma romã. O velho homem acreditava que eu adorava romãs e passou a colhê-las religiosamente para mim todos os dias.

Nunca comi aquelas romãs, mas trazia as dita cujas com a máxima importância para a casa de meus avós, como se fossem a minha grande contribuição para a mesa da família.

Fiz isso durante todas aquelas férias, mas não nas seguintes, porque aí já podia dar a volta no quarteirão e explorar outras paragens.

Até hoje, sinto uma enorme simpatia pela fruta, mas confesso que o que ela tem de melhor está nas minhas memórias.

Qual é a sua árvore da infância?

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