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A emocionante história da adoção do Dudu

Hoje o Maleta Amarela escreve sobre a corajosa luta da Myriam, mãe adotiva do Dudu, para conquistar seu amor

Conheci a Myriam aos 9 anos. Crescemos juntas e em algum ponto nosso dia a dia nos distanciou, como acontece muitas vezes.
Mas aos quarenta e poucos anos voltamos a compartilhar nossas vidas.
Ambas adotamos, eu a Laura, ela o Dudu. Vivemos o processo, que não é fácil, a ansiedade e alegria de receber uma criança em nossos corações. E isso nos uniu novamente para sempre.
Espero que gostem.

Dudu

“Adotar nunca foi exatamente um plano de vida. Eu simplesmente achava que teria um filho biológico, só isso.

Meu casamento sólido passava por tentativas de gravidez. Sem sucesso, começa a minha história com o Dudu.

Quem era eu naquele momento?

Uma jovem, de família de classe média alta, branca, judia. Sim, é importante contar tudo isso. Infelizmente, na adoção, cor, religião, raça importam. A maioria das mulheres não pensa sobre isso ao engravidar. Mães e filhos adotivos podem não pensar no assunto, mas convivem com a questão. E se esse é um depoimento sincero, não posso evitar o assunto.

Quando meu marido e eu entramos com o processo não fizemos grandes exigências quanto ao perfil da criança, só queríamos uma criança pequena.

O processo foi rápido e tranquilo, na medida em que a ansiedade permite que uma adoção assim o seja.

Se eu tive receio? Claro que sim. Não sejamos hipócritas. Coisas passam pela cabeça de uma mãe adotiva. Que tipo de gênio meu filho terá? Sabia bem a respeito do meu temperamento e o do meu marido, inclusive onde eles são problema. Mas e quanto a uma criança cuja carga genética eu não conhecia? Também tinha medo de me defrontar com um filho que nunca viesse a ter algo meu e de meu marido, nossos traços, índole, princípios, valores. Uma tolice eu sei, mas, quando a gente começa o processo de adoção, surgem medos.

Em apenas seis meses Dudu chegou nas nossas vidas, com 3 anos de idade. Recebi a notícia com muita alegria, euforia mesmo, até ter finalmente meu menino comigo.

Dudu era negro, lindo, bem cuidado no abrigo, mas com todas as carências de alguém que não conhecia o amor filial. Uma criança sem a menor referência do que fosse família, mãe, pai.

Não sei se todos sabem, mas ao se adotar uma criança mais velha, com certa consciência das coisas e histórico de vida, começa-se primeiro conhecendo a criança no abrigo (sem que seja dito a ela sobre a adoção), depois evolui-se para dias de convivência fora do abrigo. Ao final do período, se tudo der certo, efetiva-se a adoção através da guarda temporária da criança pelos pais adotivos.

O que senti nessa fase? Apego, vontade de estar junto sem interrupções impostas, felicidade, realização. Mas também insegurança, muita insegurança.

Nos primeiros quinze dias de visitas no abrigo, eu me sentia uma mãe pela metade. Imaginem vocês, eu era a mãe, mas meu filho ainda estava sob a responsabilidade do abrigo. Eu em nada determinava a vida do meu filho, sendo mera espectadora de sua rotina. Seus hábitos, gostos e preferências foram adquiridos longe de mim. Ao mesmo tempo em que tudo era uma deliciosa descoberta, era um pouco frustrante. Entendam bem, não estou falando de afeto, isso eu tinha de sobra. Falo sobre a estranha sensação de ser mãe sem a intimidade, cumplicidade com meu filho.

Na nossa curta convivência, ainda à distância e eventual, Dudu passou a receber uma carga muito grande de informação. Era tudo novo e repentino para ele. O primeiro sorvete de casquinha, o primeiro passeio em um Shopping, o movimento das ruas, um carro. Dudu nunca havia saído do abrigo. Imaginem, uma criança que simplesmente não conhecia o mundo a não ser pela televisão.

A tudo isso ele reagia maravilhado. Era emocionante ver o tanto que nosso menino absorvia de novas experiências. Ao mesmo tempo, era triste saber que parte disso tudo ele poderia ter tido antes, como tantas outras crianças, como meus sobrinhos tiveram. Era triste imaginar do quanto ele foi privado.

Dudu não tinha a menor ideia do que significavam mãe e pai, como já contei. Para ele, no começo, éramos mais um par de cuidadores amorosos. Lembro-me de quando o levamos para conhecer sua nova casa, em uma das visitas autorizadas, quando já havíamos sido apresentados ao Dudu como pais. Seu olhar maravilhado com o lindo quarto preparado, e, ao mesmo tempo, a falta de entendimento do que estava acontecendo em sua vidinha.

Três anos de abandono haviam sido suficientes para instalar uma enorme carência de amor no Dudu e para aliená-lo da realidade de uma família. Demorou para que ele absorvesse o conceito de mãe, pai, tios, primas, avó, mesmo com todo o amor recebido.

No dia em que o levamos para casa, lembro-me de colocá-lo na cadeirinha do carro, de entregar a ele um bichinho de pelúcia, e da sensação de enorme felicidade de partir com ele para uma nova vida, sem volta. Essa cena foi muito forte pra mim.

Já em casa, na nova vida, começamos a nos conhecer, a nos misturar como mãe e filho em uma nova rotina, só nossa, criada para fazer com ele se sentisse em uma família e muito amado.

Tudo ia bem, mas eu sentia que o Dudu me chamava de mãe só porque havia aprendido que assim eu devia ser chamada, sem que mãe tivesse ainda algum sentido para ele. E, confesso, isso doía pacas.

De início, Dudu se apegou muito ao pai, tanto porque meu marido era e é um pai fenomenal, quanto porque a figura masculina era novidade pra ele. A mim, mais uma figura feminina, ele dedicava birra e mau trato, uma forma de defesa inconsciente talvez.

Esperava o dia em que receberia o amor do Dudu, incondicional como o meu. Lutava por isso e acreditava que esse dia chegaria. Enquanto isso, eu vivia uma ameaça que rondava a minha cabeça.

Se o Dudu não desenvolvesse esse amor logo, como garantir que a guarda definitiva nos fosse dada? Como convencer um juiz a nos dar mais tempo? Corríamos, todos, o risco de termos nosso futuro ameaçado? Essa parte da adoção é bem dura, ter que novamente se provar mãe e pai. Que mãe biológica passa por isso?

Aqui tenho que interromper minha narrativa para agradecer a sensibilidade das Assistentes Sociais e sua enorme experiência, sua capacidade de entender nossa situação, de me incentivar nos momentos difíceis, fundamentais para que aos poucos eu pudesse me sentir mais confiante e, com isso, também ajudar meu filho.

Em uma das visitas das Assistentes Sociais, Dudu fez uma grande birra e me mal tratou, como fazia muito no começo. Frente ao meu visível desconforto e ao fato de eu ter que dar uma bronca nele, a Assistente Social disse:

Parabéns, você agora é mãe de verdade! É assim mesmo, a convivência com um filho nem sempre é fácil.

Aquilo foi um alívio pra mim. Acho que ali eu relaxei. E a coisa passou a fluir melhor.

Foi preciso quase um ano para que o Dudu se conectasse de verdade comigo, para que me sentisse como mãe.

Dudu hoje tem 11 anos, é o maior amor de nossas vidas e nós, o dele. É um menino muito alegre, parecido com a gente. É agitado e é fã de esportes como o pai, adora cachorros e música como eu.

Tem o jeitão da nossa família como se nossos genes tivessem a mesma origem. E uma avó que adora passar a mão na cabeça dele, mesmo quando apronta. E olha que ele apronta que só!

Hoje cuidamos para que o Dudu cresça feliz, realizado e integrado no mundo, que nem sempre é acolhedor para uma criança negra, principalmente em nosso meio social.

O que quero deixar de mensagem para o Dudu, que certamente um dia lerá estas palavras? Que valeu a pena desde o começo, vale a pena cada minuto até hoje. Somos muito mais felizes na vida com ele e por ele. Nosso amor é incondicional.”

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