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O Não Belonguismo

Neste final de semana estive na casa dos meus pais com minha filha Laura, de 4 anos. Foi impossível não voltar à infância.

Ao ver a curiosidade da neta sobre um berimbau encostado no canto do quarto, meu pai logo pegou o instrumento, montando a cabaça no arco com surpreendente destreza para os seus 87 anos. Em seguida, acomodou a moeda e o caxixi em uma das mãos. Em poucos minutos a casa foi invadida pelo som da capoeira, tão familiar pra mim.

Essas e outras surpresas meu pai sempre reserva à neta, que pouco sabe da sua vida cheia de excentricidades, para um homem da sua geração.

Ao som daqueles acordes viajei no tempo e me lembrei do significado dessa e de outras experiências para mim.

Na década de 70 éramos mais preconceituosos. Não que sejamos muito melhores hoje, mas, inegavelmente, a coisa melhorou. Hoje, pelo menos, uma parcela das pessoas aprecia o diferente. Essa abertura não existia na época, a não ser para os alternativos.

Minha família fugia do padrão do meio em que eu vivia. E esse padrão dissonante provocava um sentimento em mim, que, anos depois, uma grande amiga definiu como “Não Belonguismo”.

Como bolsista do Colégio Rio Branco, de Higienópolis, vocês podem imaginar que meu ambiente de alternativo não tinha nada.

Meu pai era um ex-administrador que trabalhava em um negócio que eu, aos sete anos, simplesmente não conseguia explicar. Entre outras coisas, fazia acupuntura em uma sala de atendimento na garagem de casa. Para tornar a coisa ainda mais difícil, usava moxa. Quem conseguiria explicar isso? Um diabo de um negócio que curava as pessoas com calor e cheiro de incenso?

Pequenas diferenças se tornavam grandes na hora da conversa no recreio. Morar em vila, ter gato, ter família enorme, de militares, ser espírita antes das novelas da Globo dizerem que podia, ter pai que, ao invés de tocar violão, tocava berimbau, tudo conspirava para o “Não Belonguismo”.

Não que eu desgostasse do som do berimbau. Mas o pobre instrumento virou o símbolo do “Não belonguismo”. O anti-instrumento em uma fase da vida em que tudo que se quer é ser igual, passar despercebida.

Com o tempo, com a menor surpresa que tudo isso passou a gerar nas pessoas e, principalmente, com o meu amadurecimento, passei a achar tudo isso interessante, parte da minha vida e de tudo que me transformou na pessoa que sou.

Fico muito feliz em ver a Laura simplesmente se entregar ao diferente, com olhos maravilhados de quem não tem ainda um julgamento de valor cristalizado. Que ela possa continuar a perceber o mundo com o coração, pelo máximo tempo possível.

Berimbau

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Madeleines

Hoje é um daqueles dias em que acordei precisando de colo.

Não sei quanto a vocês, mas para mim, uma coisa que é tiro e queda nesses casos, e que faço instintivamente, é buscar aconchego nas minhas memórias olfativas.

Da minha memória olfativa vem um punhado de lembranças, geralmente lá da infância. Tendo-se a sorte de um bom destino, as lembranças da infância costumam ser boas e aquecer o coração, dando a devida dimensão para os problemas que nos afligem no presente.

Sempre fui apaixonada por perfumes e glutona por natureza, talvez por isso minha relação com fragrâncias e aromas tenha sido sempre tão intensa.

Meu primeiro perfume ainda criança foi uma daquelas lavandas caseiras, em vidrinho com tampa de rolha, enfeitado com ramo de sempre viva e laçarote roxo. Não que fosse bom, na verdade era ruim que só, ácido e volátil a ponto de evaporar em poucas semanas. Mas era especial, era meu. Guardei por anos a fio aquele vidro vazio, até que dele não saía mais absolutamente nada.

Fui evoluindo e, pouco tempo depois, herdei uma colônia Charlie, fortíssima e totalmente inadequada para uma criança. A colônia era anunciada na TV e febre na década de 70. Também não a usava, era enjoativa, mas adorava ter perfume de mulher na penteadeira.

Nos anos 80, Giovanna Baby, uma lavanda macia e talcada, me acompanhou por anos a fio na passagem da infância para adolescência. Não era barata, mas valia todas as minhas economias. Jorrava o perfume no pescoço e ia feliz da vida para a escola.

Com o primeiro salário de estágio, Quartz, de Molyneaux, entrou na minha vida. Um luxo ao qual fiz questão de me dar porque batalhava muito, estudando e trabalhando. Era o perfume que simbolizava meu decolar na vida. O início da minha ascensão.

Depois veio Beautiful, da Estée Lauder, que usei por muito anos e os Armanis, meus preferidos sempre.

Há também perfumes de outros, com lugar reservado nas minhas lembranças. A colônia mentolada do meu avô, embebida em seus lenços para qualquer emergência acalorada, o cheirinho de banho tomado da minha avó, todo final de tarde, o sabonete Phebo preto do meu pai, o cheirinho doce e suave da minha filha.

Tanto gosto de perfumes que um dia acabei trabalhando no Marketing da Firmenich, uma Casa de Fragrâncias Suíça, inventora de grandes sucessos do mercado. Lá conheci como se criam os cheiros que fazem parte das nossas vidas.

Mas nem só de perfumes vive minha memória olfativa. Outro dia, me peguei sentada na mesa da cozinha, ensinando minha filha de 4 anos a mergulhar biscoito Maizena em uma xícara fumegante de Matte Leão. Ela não se animou muito, porque não visualizou a cena de seis irmãos pequenos, sentados ao redor de uma mesa de jantar em uma casinha de vila. Todos ceando antes de dormir. Em pleno inverno, juntos, com nossa mãe. Cena que eu nunca mais vi pois cada um foi viver longe e a possibilidade disso voltar a acontecer é mínima.

Outros aromas também visitam minha memória. Quase todos trazidos pelas mãos da minha mãe e minha avó. Biscoitinhos de nata, torta de maçã, pão de minuto…

Às vezes me pergunto, que perfumes e aromas farão parte da memória da minha filha? Um deles, certamente será o do meu travesseiro, que ela insiste em usar todas as noites em sua cama.

 

Este trecho de Proust é a mais linda expressão do que um aroma é capaz de fazer com nossos corações:

…É assim com o nosso passado. Trabalho perdido procurar evocá-lo, todos os esforços da nossa inteligência permanecem inúteis. Está ele oculto, fora de seu domínio e do seu alcance, nalgum objeto material (na sensação que nos daria esse objeto material) que nós nem suspeitamos. Esse objeto, só de acaso depende que o encontremos antes de morrer, ou que não encontremos nunca.

Muitos anos fazia que, de Combray, tudo quanto não fosse o teatro e o drama do meu deitar não mais existia para mim, quando, por um dia inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra os meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei por quê, terminei aceitando. Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena.

Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou antes, essa essência não estava em mim; era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal.

De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligado ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde aprendê-la? Bebo um segundo gole em que não encontro nada demais que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida. É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim…

Livro: No Caminho de Swann (Mais famoso como o trecho das Madeleines)

 

 

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O Antúrio Imperfeito: Minha História de Perdão

Nunca gostei de Antúrios. Implicava com a natureza grosseira da flor, com a agressividade da antena branca despontada através das folhas verdes.

Na casa da minha avó materna havia antúrios, espalhados em vasos na entrada da casa.

Fui criada pelos meus pais, mas por passar quatro meses de férias todos os anos na casa de meus avós (naquela época férias duravam muito, especialmente se você fosse boa aluna e não tivesse exames e recuperações para fazer), posso dizer que fui também criada por eles. Eu e meus cinco irmãos mais velhos.

Minha avó, a Dona Zula, era a esposa do General Velloso, mas, na verdade, ela era muito mais do que isso. Cozinheira de mão cheia, costureira habilidosa, professora de pintura e benfeitora na cidade onde morou nos últimos anos de sua vida.

Dedicava muito de sua energia e tempo à caridade. Atendia todo tipo de gente, fazendo de sua casa o destino dos pobres da cidade. Encaminhava doentes aos hospitais, bêbados contumazes para tratamento, dava pito em mães precoces, embora nunca as deixasse sem apoio, liderava construção de creches, clube de mães, casas populares; enfim, era, por direito, a legítima primeira dama da cidade.

Já fazia muito sendo só benemérita, até que no final dos idos de 70 resolveu tornar-se vereadora. Foi a mulher mais votada do Estado sem sequer fazer campanha, e, com o poder atribuído aos votos, passou a aprovar com muito mais facilidade seus projetos sociais.

A partir daí passou a dominar o plenário da Câmara de Pirassununga, com seus discursos inflamados contra a bancada da oposição, nas noites de quartas-feiras, em que deixava meu avô contrafeito em casa para voltar tarde da noite. Quando necessário, apelava, levava os netos às sessões na Câmara, chorava, chantageava emocionalmente, tudo para ver um projeto importante aprovado. Seu índice de sucesso era grande. Em parte pelo medo que impunha na oposição pela sua popularidade, em parte por se tratar de uma senhora, o que sempre gerava um certo desconforto em uma época em que havia poucas mulheres, ainda mais avós, na política.

Para os netos, a vó Zula era uma figura emblemática. Mulher forte, trabalhadora, e, principalmente, apaixonada pela netaiada, como ela se referia a nós. Uma avó que cozinhava quitutes deliciosos, pintava porcelana lindamente, costurava praticamente todas as nossas roupas, resolvia nossos problemas e sabia nos encantar contando histórias por horas a fio ao pé da máquina de costura.

Dona Zula era o porto seguro, o colo afetuoso para os netos. A avó perfeita. Só que não para mim.

Impaciência, intolerância com minhas pequenas falhas infantis, falta de empatia, crítica em excesso guiavam a relação daquela avó comigo.

Logicamente minha avó cumpria com toda a parte material, como fazia para outros netos, afinal, seria impossível justificar tal diferença. A coisa pegava mesmo era no afeto, ou na falta dele.

Seu comportamento era aceito, sabe como é, aquelas rudezas familiares às vezes são tão disfarçadas e sobrevivem sem que ninguém dê muita importância, a não ser os envolvidos.

Os motivos dessa perseguição eram, aparentemente, minha capacidade de provocar a lembrança do meu pai, seu eterno desafeto, e o fato de que a caçula, no caso eu, vinha no pacote dos demais netos tão amados, alguém impingida àquela mulher durante meses e meses, todos os anos. Para mim, sempre foi mais que isso, algo relacionado a mim mesmo, uma antipatia gratuita ou herdada de outras vidas. Vai saber…

Suponho que minha avó lidasse com a culpa, afinal era uma boa mulher. Suponho que até tentasse, mas nunca conseguiu me olhar com o amor que eu desejava.

Crianças precisam ser amadas e mesmo diante da indiferença tendem a insistir. Foi o meu caso. Até que ao chegar à adolescência me cansei.

Ter uma pessoa fundamental na sua formação com tal rejeição a você causa danos. Foram muitos anos do que hoje chamamos de bullying.

Após sua morte, em 86, chorei pela perda da avó que nunca tive e fiz questão de esquecê-la.

Acontece que o tempo passa, a gente amadurece, e, um dia, quando estamos prontos, nossos fantasmas reaparecem, para nos assombrar ou nos tranquilizar a alma.

Começou a acontecer por volta dos meus 46 anos. De quando em quando minha avó Zula passou a frequentar meus pensamentos. Quando eu me via diante de uma antipatia gratuita e a necessidade de superá-la para não ser injusta, quando percebia os defeitos do meu pai e o quanto isso me irritava, quando lembrava da obrigação de aceitar as imposições da vida a contragosto. E o quanto tudo isso doía em mim.

Aos poucos comecei a imaginar minha avó diante das mesmas dificuldades, mas sem um marido compreensivo como o meu, sem uma irmã presente nos meus piores dias, amigos que se importam comigo. E por que não, com menos cultura e preparo emocional.

Continuo lamentando tudo, por mim e por ela. Mas passei a compreender seus motivos. E a compreensão foi aos poucos aliviando meu julgamento e criando quase que uma certa cumplicidade entre nós. Isso tem me feito um bem danado.

Outro dia passei por um vaso de antúrio e me flagrei olhando fixamente a flor, com simpatia. Talvez compre um para a entrada da minha casa.

Antúrios

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