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Visitando minha outra vida – Diário de Regressão – Capítulo I

 Hoje o Maleta Amarela começa a série de crônicas sobre regressão. A cada semana um relato dessa experiência incrível pela qual passei e que agora compartilho com vocês. Uma viagem ao desconhecido, recheada de emoção e surpresa. Boa leitura!

A escada em caracol descendente vista sob a abertura de uma pequena porta de metal me estancou. O sol escaldante em contraste com a pouca luz dos degraus incomodava, mas não foi a razão da minha hesitação.

A voz de minha avó bem atrás de mim, me chamou rapidamente à realidade.

Anda menina. Desce! Estamos esperando.

Minha avó era a benemérita da cidade. Em Pirassununga, interior de São Paulo, em meados da década de 70, minha avó fazia alguns de seus trabalhos voluntários em parceria com a Igreja. Bem mais influente do que o padre local, sua visita com os netos à Igreja naquela ensolarada manhã era mais uma concessão à Igreja do que necessidade. Algo a ver com mais uma ação de caridade.

O fato é que, por algum motivo desconhecido para mim, minha avó, o Padre e eu devíamos descer a tal escada em caracol, bem na lateral da pequena catedral.

Depois de alguns segundos de uma estranha sensação de familiaridade com a cena e desconforto com a escada, finalmente, sob pressão, avancei pelos degraus.

Não me lembro de mais nada sobre o assunto. Aos seis anos de idade tudo se resumiu aquele momento.

Quando decidi pela terapia de regressão às vidas passadas, aos 31 anos de idade, lutava contra uma fobia de avião. Havia tentado de tudo que fosse mais normal, sem sucesso.

Escarafunchar o passado sempre me interessou e a perspectiva de resolver o problema com rapidez me animou. Já havia feito uma experiência de regressão por minha conta antes, por pura curiosidade, usando um CD com instruções de relaxamento para entrar em estado alfa. Uma imprudência que não recomendo a ninguém. Sozinha, em meu quarto, por incrível que pareça, a coisa funcionou. Mas rapidamente me assustei e despertei, não antes de entrar em uma escada em caracol, escura, através da qual eu descia para uma espécie de calabouço.

Agora seria diferente, faria as regressões não por curiosidade, mas com gente séria, com propósito. Pesquisei um lugar confiável, cujo trabalho era conduzido por psiquiatras.

Médicos que eram, esses profissionais nunca admitiram que a terapia se tratava de volta a outras vidas. A coisa oficialmente nem se chamava regressão as vidas passadas e sim regressão. Tinha sua lógica.

Primeiro porque ninguém revive nada. O máximo que podemos fazer é nos lembrarmos do que vivemos um dia. E, por mais que nossa lembrança seja acurada, há sempre um viés de interpretação em nossas recordações. Não é assim quando estamos acordados? Pois é, é assim também quando acessamos lembranças trancafiadas nas nossas mentes. Lembramo-nos do que registramos e não necessariamente do que aconteceu rigorosamente.

Segundo, para eles, médicos, não importava se havíamos ou não vivido de fato as cenas da regressão. As cenas poderiam ser recordações de cenas reais ou situações construídas no nosso cérebro em função de uma séria de estímulos recebidos ao longo da vida, como filmes, livros, histórias ouvidas, todas misturadas na nossa mente formando um enredo que poderia estar nos afetando negativamente. O papel da regressão seria o de lidar com esse conteúdo, independente de como ele havia sido construído.

Embora, por ética, nada se falasse sobre vidas passadas, era perceptível que minha terapeuta, como eu, acreditava em reencarnações. Para mim era retorno a outras vidas sim. Espírita que sou, que graça teria acreditar em outra coisa?

No dia D entrei pela clínica ardendo de curiosidade. Que personagens encarnei no passado? Onde vivi? Quem já conhecia de outras vidas? Me sentia prestes a entrar em uma sessão particular de cinema. Estrelando: Lívia!

Passei por cima do medo e lá fui, para a primeira entrevista, achando que assim, de bate pronto, faria minha primeira viagem astral. Pura ingenuidade.

Foram semanas de incansáveis conversas, em que a psiquiatra aplicava longos questionários, investigando mínimos detalhes da minha vida. Havia também questionários que meus pais responderam sobre parto, desfralde, desmame e tudo mais que envolveu a vida da criança Lívia.

Essas entrevistas, chamadas anamneses, dariam as pistas sobre por onde me levar durante a hipnose. Isso era frustrante porque mais parecia uma terapia tradicional do que a solução mágica que eu buscava.

Finalmente, após semanas, iria fazer minha primeira regressão.

No dia, mal consegui trabalhar e pensei seriamente em cancelar o projeto. Boa coisa eu não veria, certo? Onde há trauma, há sofrimento.

Para piorar a coisa, a sessão era à noite. Clínica vazia, já sem a recepcionista que, rapidinho, me encaminhou para a sala e se despediu com um frio até logo. Clima misterioso demais para o meu gosto.

Deitei-me na cama, tremendo de medo, sabendo que em alguns minutos perderia o controle da situação. Senti muita vontade de chorar porque a sensação era de vulnerabilidade. Percebi uma música tranquila ao fundo e, com dificuldade, passei a prestar atenção nas palavras da médica, comandos típicos de relaxamento.

Imagine seus pés, soltando cada parte de sua musculatura, agora suba aos tornozelos, sinta seu maxilar se soltando, e por aí foi.

Não consigo precisar quanto tempo aquilo durou, mas acho que foi coisa rápida. Logo me encontrava em uma estado alfa, em um limbo, meio lá, meio cá, semelhante ao estado em que ficamos quando estamos quase adormecendo, mas ainda temos consciência do quarto, dos sons, de quem somos.

Afinal era isso a hipnose!

A médica trabalhava em uma cadeira ao meu lado, de posse de todas as anotações das entrevistas que havíamos feito. Através delas, em sua preparação para a nossa sessão, a psiquiatra já havia identificado situações de tensão que gostaria de investigar.

Porém, na primeira sessão adotou a estratégia de me deixar livre, escolhendo um momento para o qual eu quisesse voltar. O comando foi simples, se me lembro bem, algo como:

Vou contar até três. No três, visite uma situação do seu passado. E me conte o que está acontecendo.

Antes de prosseguir, é importante explicar que, nas minhas sessões, hipnotizada, eu respondia aos comandos da médica, sem margem para desobediências. É estranho, mas era assim mesmo que a coisa funcionava. Houve vezes em que, hipnotizada, me neguei a obedecer, mas bastou uma voz mais firme de comando para que eu executasse sua ordem.

Isso era assustador. Porém, o fato de que, mesmo hipnotizada, eu tivesse consciência de onde estava, de quem era, de poder ouvir o barulho da rua movimentada de São Paulo e, principalmente, a capacidade de lembrar de tudo que havíamos conversado e de tudo que havia acontecido durante a sessão, me dava certa tranquilidade. Sim, podemos lembrar do que acontece durante a sessão. Essa era a minha garantia, afinal.

Um, dois, três. Vá.

Estou descendo uma escada escura, estreita, em caracol. Há muita umidade aqui. Tenho pressa. Ninguém pode me ver.

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Na próxima semana, o segundo capítulo do diário e a história em torno dessa misteriosa escada.

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Ela de volta

Ela sofria por amor, eu pulava amarelinha. Ela voava em seus sonhos, eu colecionava papeis de carta.

Nossas vidas corriam em paralelo, sem tangências.

Foi assim desde sempre, porque havia um descompasso.

De repente, ela foi tirada de mim. Fiquei anos sem ela. Ela sem mim.

Não trocamos confidências sobre meu primeiro amor, sobre a primeira menstruação, sobre as pequenas alegrias do dia a dia. Nem eu soube de sua vida, digo, da vida que era vivida dentro do seu coração.

Eu não a vi grávida, não partilhei da sua maternidade, não soube dos seus medos e conquistas.

Por anos. Até que, um dia, ela voltou para mim. Para sempre. Para tudo.

Minha irmã tinha nove anos quando eu nasci. Nossa diferença de idade nos mantinha em mundos distantes. Mas não era só isso, havia também personalidades opostas.

Traços delicados e perfeitos, olhos verdes desses que convidam a um mergulho profundo, pele morena, cabelos castanhos quase negros. Minha irmã era linda. Linda e tímida. Falava pouco e gostava de meditar. Era uma garota sonhadora.

Eu, menos bonita e muito mais falante, era extrovertida e talvez mais atirada para as coisas. Pelo menos era o que todos diziam.

Eu tinha orgulho da sua beleza. Achava lindo minha irmã despertar encanto nos outros. Até a criticava por não saber valorizar-se como devia, puro desperdício na minha opinião de criança.

Minha irmã casou cedo. Aos dezoito foi viver em Belém do Pará, em um tempo em que a distância desconectava. Sem internet, havia somente os telefonemas interurbanos, caros e quase sempre dedicados aos meus pais. Essa distância não diminuiu o bem querer. Isso nunca. Mas me fez deixar de pensar em minha irmã como alguém com quem pudesse contar.

Acontece que a vida é mágica e, um dia, ela voltou.

Seu marido foi transferido para Florianópolis, e eu, já adolescente, passei a frequentar sua casa, em longas férias a beira mar.

Foi uma espécie de recomeço. Um tempo de finalmente conhecer minha irmã.

Longas horas sob o sol, risadas, passeios. Um tempo em que era possível lembrar dos nossos momentos de infância e de falar sobre sonhos. Sim, minha irmã tinha sonhos e agora eu os conhecia. Um tempo de experimentar suas receitas na cozinha e de vê-la sendo mãe.

Tempo de explosão de alegria e abraços nas chegadas. De lágrimas nas despedidas. De cartas que passaram a ser escritas para preencher o tempo entre as férias, para diminuir a saudade.

Nessa época eu já entendia mais das coisas da vida, podia conversar de igual para igual e entender sobre as escolhas que aquela jovem mulher fazia.

Novas cidades vieram, muitas férias, anos se passaram até que eu me transformasse em mulher adulta, sempre com ela ao meu lado, minha irmã-mãe.

O que eu mais gostava entre nós era a capacidade que cada uma tinha de admirar a vida da outra, sem julgamento. Do genuíno interesse que tínhamos pelo que cada uma vivia. Eu, executiva, solteira, viajada. Ela, dona de casa, interiorana, com cinco filhos. Cada uma tinha sua sabedoria e uma aprendia com a outra.

Havia uma confiança recíproca, muito linda, que nos dava a certeza de que estaríamos sempre lá, com os braços abertos.

Foi minha irmã quem me consolou nas dores de amor, quem me preparou no dia do meu primeiro casamento. Foi nos seus braços que eu chorei ao me separar, quando ela vinha de longe aos finais de semana para me colocar no colo e me fazer dormir mais tranquila. Foi minha irmã quem me incentivou a procurar meu amor e soube desde sempre que eu seria feliz. Minha irmã assistiu nascer em mim uma mãe no dia em que minha filha adotiva chegou.

Eu também estive ao seu lado, sempre que possível. Vi essa bela mulher amadurecer, criar seus filhos e finalmente passar a cuidar mais de si, o que me encheu de alegria. Vi minha irmã finalmente perceber sua beleza e seus talentos. Vi minha irmã ganhando mais segurança de si. Vi minha irmã-mãe construindo uma rede de afeto ao seu redor, de gente que também a admira e a quer perto de si.

Hoje vejo na minha irmã uma linda avó de três netos, que têm o privilégio de mergulhar nos mesmos olhos verdes em que eu tantas vezes me perco.

Por que demorei tanto para escrever sobre ela?

Porque sempre escrevi mentalmente sobre essa bela mulher. Nem sempre conseguindo colocar no papel o tamanho do meu amor por ela.

 

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Adoção: Capítulo IV – Ring Ring. O telefone tocou!

 

Não sei se já comentei, mas tenho cá minhas intuições de vez em quando. Em geral, elas me são bem úteis, embora às vezes de um jeito meio torto.

Janeiro de 2013. Eu, totalmente convencida de que algo fabuloso aconteceria no ano, dessas coisas capazes de mudar nosso destino. Avisei meu marido, o Perci, pra ficar preparado. A coisa ia ser grande. Ele, que me conhece e sabe do potencial das minhas predições, levou a sério.

Na falta de perspectiva mais clara, concluí que seria a ganhadora do grande concurso de Páscoa da Cacau Show. O 1 milhão anunciado para quem comprasse seus ovos entrariam na minha conta. Era isso. Claro e cristalino.

Comprei ovos e mais ovos da marca, enchi a casa de chocolate, muito, muito chocolate. As urnas da loja perto de casa ficaram repletas de cupons preenchidos com muita fé e eu aguardava a chegada do sorteio, em maio, feliz da vida.

No dia 6 de maio tive que ir a São Paulo para uma reunião pela manhã. Saí de casa resignada, enfrentando o trânsito da Raposo Tavares, entristecida por mais um dia das mães que se aproximava. Pensei em ligar para o Fórum, dar um pulinho lá no final da tarde para saber se havia alguma novidade, mas logo desisti. Para que procurar sarna pra me coçar? Motivos pra ficar mais desanimada justo naquela semana?

Voltei pra casa após o almoço e meu marido, espirituoso como sempre, foi logo dizendo:
– Chegou depois do almoço. Bem feito, perdeu o telefonema. Ligaram do Fórum.

Eu, que já não estava para brincadeira, fiquei uma fera. Como ele podia brincar com uma coisa dessas? Falta de sensibilidade! Demorei alguns segundos até ouvir o que ele falava. De fato o telefone tinha finalmente tocado para nós. Nossa menina havia chegado.

Tremendo, peguei o papelzinho com o telefone anotado da Assistente Social. O que escutava era um sonho. Nossa menininha havia chegado e devíamos ir ao Fórum dois dias depois para conversar sobre ela e visitá-la, se fosse o caso. Lógico que era o caso!

A Assistente Social dizia as coisas de praxe. Há uma menina, de apenas 3 meses, nós éramos o casal da vez na fila…E eu só conseguia perguntar: como é a nossa menina, fale dela. A resposta para todas as perguntas foi taxativa e eu nunca esquecerei:

– Não podemos adiantar detalhes por telefone. A única coisa que eu posso dizer é que sua menina é uma bolinha perfumada. Você só não se apaixonará por ela se não quiser ser mãe.

Chorei, chorei, chorei muito até conseguir me acalmar. E assim foi por dois dias, até o nosso encontro. Eu, sem comer e dormir por dois longos dias.

No dia 8 de maio, lá estávamos Perci e eu no Fórum, para saber sobre a história da nossa filha, um passo exigido pela lei, que pais adotivos conheçam a história da criança. Depois de conhecer detalhes sobre a curta vidinha dela, fomos os três, a Assistente Social, meu marido e eu para a casa de abrigo onde ela se encontrava.

Se eu tentar descrever a ansiedade, a emoção de entrar naquele quarto, onde ela dormia em um berço junto com a melhor amiguinha de também 3 meses, não conseguirei. O trajeto da porta do quarto até o berço durou uma eternidade. Saber que minha vida se transformaria em alguns passos, que aquela menininha era a minha garotinha, esperada por uma vida inteira, foi de longe a maior emoção da minha vida.

Chegamos devagarinho, meu marido e eu, perto da nossa filha e nos apresentamos falando baixinho. Ao nos aproximarmos do berço, ela acordou, abriu seus olhos verde azulados e deu um sorriso sereno, como se já nos esperasse.

As cuidadoras do abrigo nos disseram que ela estava cansada, pois na noite anterior ficou acordada, rindo à toa e feliz, por nada ou por nós todos.

Peguei minha filha no colo, cochichei no seu ouvido:
– Oi, meu amor. Mamãe chegou. Pronto, agora você já está com a gente.

Foram precisos mais dois dias, para finalmente poder buscá-la no Fórum e trazê-la pra nossa casa, por conta da papelada a ser encaminhada.

Na sexta-feira do dia 10 de maio ela chegou linda, de laçarote e perfume no Fórum, nos braços das freiras que tanto a amaram nos primeiros meses, direto para as nossas vidas.

Não ganhei 1 milhão. Ganhei o amor da minha vida, na véspera do Dia das Mães, que passei agarrada na minha filha.

O dia em que ele tocou pra mim

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