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A arte de palpitar

Se tem uma coisa da qual ninguém, mas ninguém mesmo, está a salvo é de palpite alheio.

Palpitar é instinto natural, condicionamento genético, herança cultural, enfim, coisa contra a qual é bobagem lutar.

Não, não estou aqui para criticar palpiteiros. Muito pelo contrário, parto em sua defesa porque também sou legítima representante da classe. E quem não é? Já dei muito palpite na vida e não pretendo parar.

Palpiteiros exageram às vezes, mas também têm seus méritos quando nos fazem enxergar outras possibilidades.

Eu, por exemplo, prefiro os palpiteiros assertivos, convictos, que não deixam brecha para negativas. Esses eu respeito, pelo despudor e amor próprio. Em geral, os palpiteiros dessa linhagem têm todos o mesmo ritual: franzem as sobrancelhas, balançam ligeiramente a cabeça e com voz grave emitem o veredito. Gosto disso.

Já os hesitantes, que falam pisando em ovos, apelando para rodeios na hora de opinar, esses me irritam. São sub-reptícios, fracos na investida. E pior, deixam brechas. Palpite que é palpite tem que nos pegar de supetão, sem dar tempo para reação.

Há momentos clássicos para palpites: casamento, maternidade e mudança de casa. Aí surgem os picos no gráfico.

No meu primeiro casamento, que, aliás afundou depois de curtos dois anos, ouvi um impagável, durante a recepção, emitido por uma velhinha magra rabugenta, casada há muitos anos:

Minha filha, casamento dá trabalho. E o pior, muitas vezes dá errado. Não se descuide, fique em forma. Nunca se sabe quando virá o próximo…

Esse foi certeiro. Três anos depois eu me casava novamente.

Quando minha filha Laura chegou, aos 3 meses de idade, nova onda. Dessa vez mais forte.

De todos os palpites que recebia, os que mais gostava era da moça que trabalha em casa, a Jaciara. Mãe experiente, com filho temporão da idade da Laura, ela muito me ajudou com seus conselhos. A tal ponto que seu apelido passou de Jaci para Jaciatra, a pediatra da Laura.

Há duas semanas me mudei de casa. Novo pico.

O resultado da minha análise sociológica até agora foi: há basicamente três perfis. Os empáticos, que se preocupam em investigar hábitos da casa, necessidades da família e demonstram alguma flexibilidade na hora de negociar. Os estetas, beleza qualquer custo, que se perdem nos próprios devaneios propondo soluções que só funcionam durante sua visita (a gente que se vire depois). E os que não estão para brincadeira. Esses querem que a coisa funcione mesmo que seja na base da feiura.

Qual será o próximo? No meu caso, com 48 anos, aposto que a menopausa. Reposição hormonal? Aceito prós e contras.

Sem os palpites que graça a vida teria? Aliás, estou até pensando em lançar um novo blog: Palpite Certeiro.

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O Gorila e as Meias de Seda

Algum mês de 1996. Aniversário da digníssima Araras, pequena cidade do interior de São Paulo.

Evitarei nomes.

Nessa época, eu trabalhava no marketing de uma famosa multinacional, que tinha em Araras uma de suas mais importantes fábricas, um orgulho para a cidade.

O Diretor da área, meu chefe, um sujeito de poucas palavras e autoridade inquestionável, mandou que alguns colegas e eu representássemos a multinacional na solenidade da Câmara Municipal e avisou: nada de faltar porque é politicamente importante para nossa relações com a cidade e a Prefeitura.

No dia, lá fomos nós, resignados para o tedioso programa, um dia perdido em nossas vidas . A perspectiva de viajar 2 horas em um calor desgraçado e enfrentar discurso de vereador desanimava.

Chegamos cedo por precaução e, como a Câmara ficava dentro de um parque bonito, resolvemos dar uma volta. Surpresa! Lá dentro havia um pequeno zoológico. Huumm, que agradável….

Vimos alguns animais, demos risadas, fizemos piadas, quando entramos em uma ruela sem saída do pequeno zôo: a rua do Gorila. Por que letra maiúscula? Porque o cara era enorme!

Por absoluta falta do que fazer, começamos a provocar o infeliz na porta da jaula, imitando o pobre coitado. A cena devia ser ridícula. Nós, de executivos, gravata, blazer, meia de seda, salto alto, em um comportamento infantil. A prova de que no fundo somos todos crianças brincando de coisa séria. E o Gorila, totalmente confortável como veio ao mundo e cada vez mais irritado.

Sinceramente, até hoje não sei como aconteceu. Em uma fração de segundo, o Gorila disfarçadamente se abaixou e raspou um bolo de bananas amassadas do chão, que jogou em cima da gente, urrando de prazer, às gargalhadas. Ploft.

Saímos correndo pelo lado errado da rua sem saída, exatamente o que a besta-fera parecia querer. Encurralar vítimas era sua especialidade.

O Gorila ficou lá, em êxtase, só esperando a nossa volta. Um ser totalmente superior.

Como voltar? Passando pela jaula dele levaríamos mais bananas! Escalar o muro da ruela seria impossível. Ficamos lá, paralisados por alguns segundos, crianças pegas na travessura e sem graça uns com os outros, pelas maçaroca que começava a escorrer pelos ternos, meias de seda e saltos altos.

Não houve jeito, tivemos que voltar pela rua, levando cada um mais um banho de potássio.

Chegando à Câmara, graças à nossa antecedência, pudemos nos esgueirar até os banheiros e nos limpar razoavelmente, passar uma aguinha no cabelo, etc e tal. Mas o perfume ficou….

Em alguns minutos entrávamos na solenidade, importantes, elegantes e muito sérios para representar a poderosa empresa.

Nosso chefe ficou feliz da vida.

Agora me conte algo que você já fez e te mata de vergonha!

Soberano e muito mais elegante que a gente

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Clube de Campo e Bala Perdida

1993. Eu, 23 anos, recém- selecionada como trainee de vendas da Nestlé.

Seria um ano de trabalho em supermercados, padarias, mercadinhos, para depois voltar ao escritório e assumir o marketing de uma das marcas da empresa, já com alguma experiência do que é vender na prática o que se cria nas salas de reunião.

Admito hoje o que não podia dizer na época. Estava que era puro desânimo. Imagine, ficar um ano zanzando de carro pela cidade, sem nenhum conforto, me esfalfando para vender caixas de cereais, biscoitos, cafés, no verão escaldante de São Paulo.

Depois de alguns meses como promotora de vendas, aquela que limpava gôndolas, pegava caixas bem pesadas no estoque, arrumava produtos nas prateleiras, etiquetava preços, vestindo avental e espanador – naquela época não existia código de barras – finalmente assumi uma área como vendedora. E fui parar lá longe, na periferia da zona sul de São Paulo.

Não sei como funciona hoje, mas naquela época, o ano como trainee era um pedágio em que davam o osso pra gente mastigar, em um esquema meio militar: só quem sobrevive segue adiante.

Dos meus quase cem clientes, a maioria eram padarias e mercadinhos xexelentos de 1 ou 2 caixas, em endereços que simplesmente não constavam no guia de ruas. Ruas e vielas precárias, onde a recomendação dos próprios clientes era a de não me demorar, fazer o que tinha que fazer rapidamente e me mandar antes que a bandidagem saísse para trabalhar.

Ao final de alguns meses, estava exausta daquela rotina maçante e prestes a jogar o avental, literalmente, quando meu supervisor avisou:
– Você acaba de ganhar mais um cliente. O Supermercado Clube de Campo!

Um supermercado em um Clube de Campo! Que maravilha! Um oásis na minha rotina. Um respiro!  Já imaginei um simpático gramado, um mercadinho simples dentro do clube, onde poderia almoçar com certo prazer.

No dia da visita, fui em direção à Diadema e, na minha ingenuidade, não atinei que Clube de Campo simpático e Diadema não combinavam.

Fui indo, indo, indo, cada vez mais para o fundão. Até que, de repente, avistei o supermercado no meio de uma serra pelada poeirenta, coalhada de gente e cachorros esquálidos. Uma construção paupérrima cravejada de balas, com segurança armada de fuzil na porta.

Foi a gota d´água. Sentei-me na calçada em frente ao mercado e desatei a chorar com a cabeça entre as pernas. Após alguns minutos chamando a atenção de todos na rua, entrei no estabelecimento. Fui recebida pelos dois sócios: um açougueiro, com avental ensanguentado e facão na mão. E um senhor completamente banguela, com revólver na cintura.

Nada amistosos, os dois logo avisaram:
– A menina vai deixar a gente na mão, não vai aguentar o tranco. Aqui não vai ter venda pra você. Nem adianta voltar.

Fui ao supermercado Clube de Campo religiosamente por semanas a fio, sem vender um grão de café, um biscoito. Arrumando aquelas prateleiras sob o olhar desconfiado do Sr. José, o banguela.

Um dia, o José grita lá da sua salinha no mezanino:
– Ô, Nestlé, pode fechar uma venda aí, de cereais. Mas não abusa!

O Supermercado Clube de Campo tornou-se meu maior cliente, e o the best. Com ele vendi muito, bati metas e até ganhei um concurso de vendas.

As visitas ao Clube de Campo tornaram-se um prazer, uma janela acolhedora para os meus dias, pelas conversas que passei a ter com o José, um senhor simples, imigrante nordestino que havia prosperado à custa de muito trabalho, e que sentia um grande prazer nas conversas com uma jovem esforçada e entusiasmada pela vida. Aprendemos muito juntos, um sobre o mundo do outro.

Fui tratada sempre com muito respeito e carinho pelos dois, que ao seu modo tosco, cuidavam de mim, zelando pela minha segurança ao chegar e sair do bairro.

Meses depois recebi a notícia da minha tão esperada transferência para o marketing, no escritório da Nestlé. Não consegui me despedir de todos os clientes, eram muitos, mas fiz questão de ir à Diadema, dar um abraço nos meus amigos.

Sei que hoje o bairro da Serraria é outra coisa e também soube que existe um tal Supermercado Club de Campo (com b mudo mesmo) bem moderno por lá. Será o mesmo? Espero que sim. Eles bem que merecem.

A visão do paraíso

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