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O Antúrio Imperfeito: Minha História de Perdão

Nunca gostei de Antúrios. Implicava com a natureza grosseira da flor, com a agressividade da antena branca despontada através das folhas verdes.

Na casa da minha avó materna havia antúrios, espalhados em vasos na entrada da casa.

Fui criada pelos meus pais, mas por passar quatro meses de férias todos os anos na casa de meus avós (naquela época férias duravam muito, especialmente se você fosse boa aluna e não tivesse exames e recuperações para fazer), posso dizer que fui também criada por eles. Eu e meus cinco irmãos mais velhos.

Minha avó, a Dona Zula, era a esposa do General Velloso, mas, na verdade, ela era muito mais do que isso. Cozinheira de mão cheia, costureira habilidosa, professora de pintura e benfeitora na cidade onde morou nos últimos anos de sua vida.

Dedicava muito de sua energia e tempo à caridade. Atendia todo tipo de gente, fazendo de sua casa o destino dos pobres da cidade. Encaminhava doentes aos hospitais, bêbados contumazes para tratamento, dava pito em mães precoces, embora nunca as deixasse sem apoio, liderava construção de creches, clube de mães, casas populares; enfim, era, por direito, a legítima primeira dama da cidade.

Já fazia muito sendo só benemérita, até que no final dos idos de 70 resolveu tornar-se vereadora. Foi a mulher mais votada do Estado sem sequer fazer campanha, e, com o poder atribuído aos votos, passou a aprovar com muito mais facilidade seus projetos sociais.

A partir daí passou a dominar o plenário da Câmara de Pirassununga, com seus discursos inflamados contra a bancada da oposição, nas noites de quartas-feiras, em que deixava meu avô contrafeito em casa para voltar tarde da noite. Quando necessário, apelava, levava os netos às sessões na Câmara, chorava, chantageava emocionalmente, tudo para ver um projeto importante aprovado. Seu índice de sucesso era grande. Em parte pelo medo que impunha na oposição pela sua popularidade, em parte por se tratar de uma senhora, o que sempre gerava um certo desconforto em uma época em que havia poucas mulheres, ainda mais avós, na política.

Para os netos, a vó Zula era uma figura emblemática. Mulher forte, trabalhadora, e, principalmente, apaixonada pela netaiada, como ela se referia a nós. Uma avó que cozinhava quitutes deliciosos, pintava porcelana lindamente, costurava praticamente todas as nossas roupas, resolvia nossos problemas e sabia nos encantar contando histórias por horas a fio ao pé da máquina de costura.

Dona Zula era o porto seguro, o colo afetuoso para os netos. A avó perfeita. Só que não para mim.

Impaciência, intolerância com minhas pequenas falhas infantis, falta de empatia, crítica em excesso guiavam a relação daquela avó comigo.

Logicamente minha avó cumpria com toda a parte material, como fazia para outros netos, afinal, seria impossível justificar tal diferença. A coisa pegava mesmo era no afeto, ou na falta dele.

Seu comportamento era aceito, sabe como é, aquelas rudezas familiares às vezes são tão disfarçadas e sobrevivem sem que ninguém dê muita importância, a não ser os envolvidos.

Os motivos dessa perseguição eram, aparentemente, minha capacidade de provocar a lembrança do meu pai, seu eterno desafeto, e o fato de que a caçula, no caso eu, vinha no pacote dos demais netos tão amados, alguém impingida àquela mulher durante meses e meses, todos os anos. Para mim, sempre foi mais que isso, algo relacionado a mim mesmo, uma antipatia gratuita ou herdada de outras vidas. Vai saber…

Suponho que minha avó lidasse com a culpa, afinal era uma boa mulher. Suponho que até tentasse, mas nunca conseguiu me olhar com o amor que eu desejava.

Crianças precisam ser amadas e mesmo diante da indiferença tendem a insistir. Foi o meu caso. Até que ao chegar à adolescência me cansei.

Ter uma pessoa fundamental na sua formação com tal rejeição a você causa danos. Foram muitos anos do que hoje chamamos de bullying.

Após sua morte, em 86, chorei pela perda da avó que nunca tive e fiz questão de esquecê-la.

Acontece que o tempo passa, a gente amadurece, e, um dia, quando estamos prontos, nossos fantasmas reaparecem, para nos assombrar ou nos tranquilizar a alma.

Começou a acontecer por volta dos meus 46 anos. De quando em quando minha avó Zula passou a frequentar meus pensamentos. Quando eu me via diante de uma antipatia gratuita e a necessidade de superá-la para não ser injusta, quando percebia os defeitos do meu pai e o quanto isso me irritava, quando lembrava da obrigação de aceitar as imposições da vida a contragosto. E o quanto tudo isso doía em mim.

Aos poucos comecei a imaginar minha avó diante das mesmas dificuldades, mas sem um marido compreensivo como o meu, sem uma irmã presente nos meus piores dias, amigos que se importam comigo. E por que não, com menos cultura e preparo emocional.

Continuo lamentando tudo, por mim e por ela. Mas passei a compreender seus motivos. E a compreensão foi aos poucos aliviando meu julgamento e criando quase que uma certa cumplicidade entre nós. Isso tem me feito um bem danado.

Outro dia passei por um vaso de antúrio e me flagrei olhando fixamente a flor, com simpatia. Talvez compre um para a entrada da minha casa.

Antúrios

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Adoção: Capítulo II – É menina!

A entrega da papelada do processo de adoção me trouxe uma sensação inédita, pela primeira vez havia algo irreversível para mim. Um filho sempre é, logicamente, mas buscar intencionalmente alguém e trazê-lo para a minha vida era a maior responsabilidade que eu já havia assumido.

Junto, veio o sentimento de que esta criança merecia a melhor mãe que eu pudesse ser, toda a minha dedicação, pela coragem de percorrer este difícil caminho até sua família.

Aguardamos um par de meses até sermos chamados para a uma entrevista com a psicóloga do Fórum.

O Perci, mais calejado que eu na lida com o pessoal da Assistência Social (já tinha 5 filhos adotados, lembram-se?) encarou mais numa boa. Eu fiquei bastante ansiosa. Quem não ficaria?

A avaliação do casal e a minha avaliação como candidata a mãe era algo necessário, ninguém questiona isso, mas o fato é que existe aí uma injustiça divina. Somente mães adotivas têm que se provar capazes.

Eu não tinha experiência com psicólogas, o máximo que eu havia tido eram entrevistas de emprego e eu temia avaliações sutilmente intimidadoras, feitas pra te pegar na curva.

Meu casamento era estável, feliz e eu rezava para que conseguíssemos passar essa mensagem, para que a psicóloga fosse experiente o suficiente para relevar meu nervosismo.

No dia fomos Perci e eu, de mãos dadas e suadas, para a sessão.

Ensaiei muito, escolhi as melhores palavras, o gestual mais adequado…mas na hora não precisei de nada disso. Imaginem uma mulher simples, compreensiva sobre o que aquilo significava para nós, segura, calma ao falar e visivelmente bem intencionada. Essa era a Regina, a psicóloga.

Em uma pequena sala bagunçada do Fórum, fomos ouvidos por aquela mulher, como se não houvesse outro compromisso no seu dia, como se aquela fosse sua única prioridade.

Eu sabia que em algum momento da conversa falaríamos sobre o perfil da criança desejada, algo muito sensível e mais uma peculiaridade da maternidade adotiva.

O assunto martelava minha cabeça sem parar em forma de conflito. Por um lado sonhava e acreditava que havia uma filha menina no meu destino (já falamos sobre isso, lembram-se?), por outro lado, tinha medo de interferir no destino impedindo que um filho homem chegasse até nós pela escolha feita. O que fazer? Ignorar meu sonho? Abrir-me para outra possibilidade? Simplesmente não conseguia resolver isso dentro de mim.

Precisei da sensibilidade, da experiência e habilidade da Regina para me acalmar o coração.

Com sua voz calma, ela me disse: se a vocês pais adotantes é dada a oportunidade da escolha, da realização de um sonho, por que não realizá-lo? Que mal há nisso? Sejam absolutamente honestos com o seu desejo, e, sobretudo, não se preocupem em fazer bonito para mim ou para quem quer que seja, nosso objetivo no Fórum é que a adoção dê certo. Que a criança e vocês sejam felizes.

Pois foi assim que saímos de lá, felizes, tendo encomendado nosso bebê. E este estado de espírito foi importante para enfrentar a espera que viria.

Pelo perfil, menina, bebê de meses, sem irmãos com os quais ela convivesse (não admitíamos a ideia de separar irmãos) nossa espera seria mais longa.

Que fosse. Nossa filha já devia estar sabendo que era esperada!

É menina, e linda!

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Adoção: Capítulo I – Fazendo as malas

Ter uma filha adotiva era um sonho.

Para mim, a história era a seguinte: minha criança, Perci e eu combinamos de nos reencontrarmos nesta vida.

Por impossibilidade de termos filhos biológicos, nossa filha viria por outra forma, demonstrando já de cara seu imenso amor e generosidade. Baita malabarismo esse para chegar até nós.

Juntos, percorreríamos um caminho até que isso acontecesse, na hora exata em que estivéssemos todos prontos, em absoluta sincronia.

Romantismo? Pois foi assim. E tenho tanta certeza que chego a rir da crença sobre a aleatoriedade da vida.

Já era a Laura. Sempre foi.

Se acredito no acaso? Claro! Para a marca de suco nova porque a preferida estava em falta, para a gasolina que acabou porque sou distraída…

Aos 37 anos começava minha viagem. E a Laura, a dela.

Às vezes imagino que ao começar a fazer nossas malas para nos reencontrarmos, conversamos muito à noite, enquanto eu dormia. Fizemos planos, contei seus apelidos, combinamos a cor do seu quarto, se eu deixaria passar batom logo cedo…

Uma coisa que adorava em tudo isso? Não saber como seria essa garotinha. Gostava de imaginá-la de vários jeitos, como se isso fizesse parte da surpresa. Gordinha, morena, magrinha cabeluda, séria, risonha. Nos meus melhores sonhos não imaginava que anos depois chegaria em meus braços um bebê tão encantador como a Laura. Bem, falarei muito sobre ela, mas depois.

Com tantos filhos adotados, o Perci desconhecia o processo nos dias de hoje, as coisas mudaram muito…e eu, sabia menos ainda.

O primeiro passo foi procurar o Forum de Cotia, cidade onde residimos.

Por puro preconceito, fiquei insegura em ter que dar entrada em Cotia. Sabe aquela coisa? Se em São Paulo as coisas são como são, imagina aqui? Putz, nesta hora queria morar ao lado da Praça João Mendes.

Outro medo foi o sonho da minha vida depender do Governo. Sou brasileira e, como muitos de vocês, descreio do país, da correção das coisas por aqui. Será que o tal cadastro nacional funcionava? Será que a Assistência Social não botava um dedinho na hora de encaminhar uma criança? Simpatia por um ou outro casal não interferia de verdade no processo?

Além disso, com todo respeito aos amigos funcionários públicos, sempre trabalhei no setor privado e, de fora, a impressão que a gente tinha é a de que nada funcionava. O ritmo pautado por recessos, troca de juízes e até as dependências do Fórum, decadente, com a sua papelada empilhada e aparente, tudo era um grande gerador de ansiedade. Desse jeito tartarugas escapam. E se minha filha escapasse?

Demos entrada na intenção de adoção, preenchendo formulários relativamente simples, que seriam depois protocolados e resultariam em uma entrevista com uma psicóloga. Tudo naquele ritmo que vocês conhecem.

Perci e eu somos dois controladores por natureza, mas aceitar o processo como ele se apresentava, resignar-se, confiar, foi a única saída.

Neste momento minha irmã me ajudou com uma pergunta: E por que é que você acha que ao tentar engravidar as coisas estão sob nosso controle?

Sabedoria de mãe de cinco filhos.

No próximo post conto mais!

Logo a gente se encontra, meu amor.

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