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Amiga nova aos 40?

Uma das coisas difíceis com a idade é fazer amizades verdadeiras. Sabe como é, depois dos 40 encaixar vidas é quase impossível.

Se a amiga é casada e você não, problema. Liberdade em patamares bem distantes.

Se ambas são casadas, o santo dos maridos têm que bater. Imaginem a loteria!

Se ela tem filhos e você não, haja paciência pra aguentar fotinhos fofas, aniversário de 2 anos, reclamação da babá.

Isso não acontece quando a gente é jovem. A gente gosta dos amigos e pronto. Às vezes até apesar deles próprios.

Pois eu ganhei nesta loteria aos 40.

Um belo dia, marquei um almoço com meu irmão. Por um mal entendido nos desencontramos e eu fui parar em um simpático restaurante por quilo no centrinho da Granja Viana: a Cozinha de Santo Antônio. Adorei a comida, a decoração e acabei me tornando cliente assídua.

Cozinha de Santo Antônio

Praticamente todos os dias passava meu prato pela balança e recebia um simpático sorriso de uma mocinha loira do caixa, a dona.

Por anos, nossa amizade se limitou a esses sorrisos.

Muitas vezes, e ela nem sabe, eles me alegraram em dias difíceis. Descobri depois que eu não passava desapercebida. Ela também gostava de me observar.

A coisa foi assim por muito tempo, trocávamos poucas palavras e a partir delas foi-se criando uma cumplicidade. Uma sensação de conhecer bem uma à outra sem nada sabermos de nossas vidas.

Um dia, do nada, depois de tanto tempo, sentamos para conversar depois de um almoço tardio em seu restaurante. Descobrimos gostos parecidos e um sonho, imaginem. De nos aventurarmos em algo diferente na vida.

Sem nem muitos por quês, confiamos uma na outra a ponto de decidirmos realizar esse sonho juntas. Loucura na opinião de alguns.

Em poucos meses abríamos a Drissée, nossa loja de bijoux também na Granja Viana.

Nossa linda loja

Cuidamos de cada detalhe da nossa linda loja do mesmo jeito que íamos cuidando da nova amizade. Com amor, atentas aos detalhes, querendo muito que desse certo.

Uma hora a sociedade acabou. Nenhuma sociedade termina porque tudo aconteceu como se espera, mesmo que o inesperado sejam coisas boas até.

A loja tornou-se inviável, mas nos nossos corações, sem que precisássemos falar sobre isso, tomamos a firme decisão de permanecermos amigas. Nos desapegamos de tudo que havíamos construído, menos de nós mesmas.

Ao final, o incrível aconteceu. Éramos ainda mais amigas.

Hoje em dia, somos irmãs, vizinhas, comadres e eternas sonhadoras. Juntas.

A Cris, quem conhece sabe, é destas mulheres de alma pura, força guerreira, abraço amoroso. Uma vez cativada por ela, você está perdida!

Amizade

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Cristais às segundas

Tinha 19 anos quando conheci minha amiga Serena.

Não posso dizer que não sabia da importância que ela teria na minha vida. Apenas por ouvir seu belo nome minha intuição me avisou. Ela fará parte de você. O que eu não sabia na época é que Serena teria uma enorme influência sobre mim, despertaria minha alma para tantas coisas da vida.

Em pouco tempo nos tornamos amigas e passei a frequentar seu animado apartamento na Av. Higienópolis, onde ela morava com seu marido, Elliot. Já falei do Elliot para vocês, o amigo que me ajudou a comprar meu apartamento.

A casa era pura efervescência. Lá se encontrava uma turma de amigos fiéis, para ouvir boa música, assistir filmes bacanas, ler livros em saraus divertidíssimos e jogar conversa fora.

Eu era uma espécie de mascote da turma, mais nova, protegida da Serena e do Elliot.

Tudo ali era especial. O ar rescendia a perfume, as paredes eram coloridas, da cozinha saíam receitas apetitosas feitas pela Serena. Mas o que mais fascinava ali era o calor daquela casa, a capacidade que ela tinha de nos fazer bem vindos a qualquer hora. E isso era muito a Serena.

Uma das coisas mais bonitas na minha amiga era a capacidade do bem viver. Sua firma crença de que o bom da vida deve ser usufruído, todos os dias.

Taças mofando em cristaleiras? Não eram com ela. E assim ela levava a vida. Assim aprendi com ela.
Cristais e velas acesas às segundas, toalhas rendadas no café da manhã, louças de estimação no jantar da semana e, intensidade no amor, todos os dias.

Outra coisa muito Serena era sua capacidade de se levar a sério rindo de si mesma, de fazer conviver as duas coisas, com a sabedoria de quem sabe que a vida também abraça o ridículo. Nisso sempre fomos parecidas. E rimos muito, sempre, da vida.

Serena era uma irmã divertida, novidadeira, impetuosa, com a coragem que muitas vezes me inspirou. Uma gitana. Aliás, quantas canções flamencas escutamos juntas, sonhando como meninas que ainda éramos.

E era também meu porto seguro no começo da vida adulta. Alguém que cuidava de mim e me introduzia pelas mãos em um novo mundo. Na época, nem desconfiava que tanto quanto eu, a Serena sabia pouco da vida.

Com ela conheci comida japonesa, passei a gostar de Bossa Nova, de amarelo, a prestar mais atenção nas flores e a me arriscar na vida. Coisa que ela faz até hoje.

Saí da juventude ainda uma menina. E entrei pelas mãos da Serena na idade adulta. Com muito mais brilho e apetite para ser feliz.

 

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Como comprar um apartamento nas lojas Marisa

Uma sincera homenagem ao amigo Elliot.

1997. 27 anos de idade. Morando com pai e mãe, muito a fim de ter meu canto, mas nada planejada para o que significava aquilo.

Já trabalhava como gerente de uma multi, ganhava muito bem. Poupava quase nada. Sabe como é, aquela história de demanda reprimida, anos a anos de classe média apertada, filha de professores. Querendo de um tudo, podendo muito pouco. De repente a grana começa a entrar, vem o carro zero, roupas bacanas, restaurante dos Jardins, viagem pra fora, ajudas pra família, e por aí vai. Ou melhor, foi, o meu dinheiro.

Na prática tinha uma pequena poupança.

Visitei apartamentos para alugar na Vila Madalena. Na época, um bairro bem viável financeiramente. Depois de alguns carpetes gastos, cozinha de pisos encardidos, prédios com entradas lúgubres, cheguei à conclusão de que deveria tentar um imóvel em construção. Esperaria alguns meses, sem problemas.

É aí que o Elliot aparece na história. Um sujeito que se casou com a minha melhor amiga, anos antes. Casaram-se e, por herança, ele entrou na minha vida. E ficou.

O Elliot é daqueles amigos com senso de humor típico dos resmungões, bem reclamão, com enorme coração, inteligência ímpar e tremendo bom gosto. Pronto, a receita certa para se tornar querido por muitos.

Logo de cara deu liga, carinho recíproco de irmão mais velho e irmã caçula.

Bem, voltando ao apartamento. Era um domingo ensolarado de maio. Acordei disposta a comprar o jornal e procurar imóveis. Liguei pra contar a novidade pro Elliot. Eram 10 horas.

Às 10h30 já tinha localizado um prédio na Rua Fidalga. Iria até lá.

Às 11h30 estava apaixonada pelo apartamento, com a firme crença de que seria feliz ali.

Às 12h liguei de volta pro Elliot avisando que havia dado o cheque do sinal e assumido prestações.

Proibida de fazer qualquer coisa, de voltar a falar com o corretor até o casal chegar, o Elliot gritava ao telefone:
– Lívia, não se compra um apartamento como se compra calcinhas nas lojas Marisa! O que foi que você assinou? Não assina mais nada! Tô chegando.

Lá pelas 12h30 chega o casal Elliot e Serena, visivelmente descabelados.

Enquanto ele vai checar as condições de entrada, ameaçar desfazer o negócio precipitado, Serena e eu olhávamos a vista e já planejávamos a decoração, cor das paredes, primeiro brinde, em êxtase!

E assim foi, em todo o processo da negociação, estava lá o Elliot comigo. Brigando com a construtora, ameaçando desistir da compra.

No meio de uma das discussões em que fui orientada a ficar calada e fazer cara de desinteresse, o Elliot dizia:
– Vocês sabem o calibre desta compradora? O cargo dela? O salário? Amigo, a construtora devia é dar um desconto, olha esse perfil! Parecia um pai brigando na escola.

E eu lá, adorando tudo aquilo.

Poucos meses depois me mudei pra Rua Fidalga, onde morei e fui feliz por muito anos.

Apartamento Já!

Você já fez alguma loucura assim? E que deu certo. Muito certo?

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