O General e a Romã necessária

Escrever tem me feito voltar à infância. Em um curso recente sobre escrita com a maravilhosa Ana Holanda, editora da Revista Vida Simples, soube que isso é comum. Começamos a abrir as portas para nossas emoções e é na infância que elas se encontram em estado bruto.

Outro dia, observando minha filha de quatro anos e vendo o seu prazer diante de uma conquista, poder subir sozinha a rampa da escola em direção à sua sala, e a enorme felicidade estampada em seu rosto, lembrei-me de quando era criança e senti tal emoção.

Tinha 5 anos e costumava passar as férias na casa dos meus avós maternos, na pequena cidade de Pirassununga, interior de São Paulo. Pirassununga era uma cidade militarizada pela presença de um quartel general e pela Academia da Força Aérea. Por conta disso, tornou-se o destino de muitos militares reformados pela aposentadoria, caso do meu avô, General da Cavalaria.

Caçula que eu era, pouco podia fazer por minha conta, enquanto meus irmãos desfrutavam de maior liberdade, podendo por exemplo ir e vir como lhes aprouvesse.

A casa de meus avós ficava em uma avenida razoavelmente calma, bem no meio de um quarteirão arborizado e todo final de tarde meu avô ia até a calçada tomar um pouco de ar fresco. Esse era o único momento do dia em que eu costumava acompanhá-lo.

Meu avô general era ranzinza, tinha pouca paciência com crianças e psicologia à moda antiga, pouco papo e muito mando.

Sua grande batalha no verão era perseguir moscas com uma pazinha plástica, já que elas demonstravam clara preferência por ele. De quando em quando, juntava-se perto dele um monte considerável dos restos da batalha, que ele recolhia com um misto de raiva e orgulho. Seu nível de irritação com as voadoras ia subindo ao longo do dia, de forma que a partir do início da noite era aconselhável ficar a certa distância dele.

Mesmo assim, sujeita ao seu mau humor, eu nunca não faltava ao nosso compromisso diário. Tomava um banho perfumado, caprichava no vestido, pegava minha bolsinha de plástico com furinhos, devidamente abastecida com balas e chicletes, e permanecia ao seu lado vendo o movimento do final de dia, não sem pedir frequentemente para dar uma voltinha por minha conta até a esquina. Pedido sempre feito e devidamente recusado.

Um belo dia, para minha surpresa, distraída olhando os carros, ouço uma voz de comando:
– Se quiser, vá até a esquina e volte. Estarei aqui olhando.

Não pude acreditar! Estufei o peito, arrumei a bolsa no ombro, e fui caminhando com independência e orgulho até a esquina. Passei pela casa vizinha, da Dona Elícia e Tenente Reducino e seus três poodles irritadiços, cumprimentando-os com naturalidade, como se aquilo fosse um passeio trivial. Mais duas casas e pronto.

Fui e voltei algumas vezes por este trajeto, esticando ao máximo o prazer, diminuindo a velocidade à medida em que me aproximava do meu avô. Nos dias seguintes, rezava para não chover, assim, o prazer vespertino estaria garantido.

Até que comecei a sentir que faltava um propósito para aqueles passeios.  Foi quando me lembrei de que na casa da esquina havia um pé de romã, fruta que, aliás, sempre achei azeda e sem graça. Mas para aquela situação, ela tinha serventia.

Passei a incorporar uma tarefa diária às caminhadas: tocar a campainha da casa, onde morava um velhinho simpaticíssimo, e pedir uma romã. O velho homem acreditava que eu adorava romãs e passou a colhê-las religiosamente para mim todos os dias.

Nunca comi aquelas romãs, mas trazia as dita cujas com a máxima importância para a casa de meus avós, como se fossem a minha grande contribuição para a mesa da família.

Fiz isso durante todas aquelas férias, mas não nas seguintes, porque aí já podia dar a volta no quarteirão e explorar outras paragens.

Até hoje, sinto uma enorme simpatia pela fruta, mas confesso que o que ela tem de melhor está nas minhas memórias.

Qual é a sua árvore da infância?

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *