CATEGORIA ZOOM COTIDIANO

O Karma atlético

Aos 47 anos sempre temos aquelas questões mal resolvidas, pendências kármicas que vamos empurrando na esperança de que o assunto caduque por falta de solução. Ou que a próxima vinda à Terra trate de resolver.

No meu caso, a preguiça, a total falta de vontade de malhar, ou, pelo menos, exercitar-me no nível mínimo exigido pelo consenso moderno é o problema.

Para entender o meu caso, que é grave, é preciso explicar minha linhagem genética. Tinha tudo para ser sarada, malhada, sequinha, pois venho de um pai atlético, instrutor de artes marciais e levantador de alteres (se falava assim na década de 70), quatro irmãos praticantes de tênis, corrida, futebol e outras modalidades esportivas. Infelizmente, saí à minha mãe e irmã, o oposto deles. E, meus amigos, quando se renega assim uma herança genética é porque a coisa dificilmente terá solução.

Não me faltaram tentativas ao longo da vida, é verdade. Mas fracassei em quase todas, e o pior, sem remorso.

No colégio, ainda criança (essa culpa minha mãe divide comigo) passei incólume pelos anos de educação física, com atestados vários, tipo de dedo do pé inflamado, orelha dormente, cotovelo latejante e por aí vai. Eu e mais um par de amigas que preferiam fofocar na rampa do Colégio Rio Branco, enquanto a turma suava no handball.

Aos 10 anos, meu pai me matriculou na ACM, em uma tentativa de me fazer chacoalhar o esqueleto, mas meu momento preferido era o lanchinho no final de aula, que eu aguardava ansiosa. Para mim, aquela hora perdida só se justificava pela recompensa calórica. Um tempo depois, diante da minha falta de entusiasmo, pude voltar feliz para as tardes preguiçosas em casa.

Fui indo assim, com a sorte de ter uma forma física que não me dava problemas até que aos 24 anos, trabalhando como executiva da Nestlé, recebi um folheto na porta do prédio da firma, que mudaria a minha vida. Sério, coisa do outro mundo.

Acompanhem comigo, o anúncio distribuído na Berrini, avenida repleta de empresas em São Paulo e coalhada de executivos bem vestidos, era muito claro: Ginástica Passiva, o equipamento faz a ginástica por você.

Tratava-se de um método francês, revolucionário, que acabava de chegar a São Paulo. Matriculei-me imediatamente, embora a mensalidade fosse bem salgada. Era o preço da mágica.

No dia da primeira sessão, fui para a academia (será mesmo esse o termo correto?) com minha roupa usual: saia, meia de seda, sapato, obviamente sem aquela coisa abominável de mochila com calça de malhação, tênis, toalha de banho e afins, afinal a parafernália não seria necessária.

Agora vem a parte que me indignou, a pergunta:
– Você não vai se trocar?
– Hã? Não, obrigada. Estou confortável.
Cara de espanto da recepcionista.

Deitei-me no equipamento, me ajeitando o melhor possível para o soninho pós almoço, sim, já havia almoçado, quando a instrutora chegou.
– E inspira, expira…

Perguntei:
– Que negócio é esse? Eu vim aqui para dormir e acordar com a coisa feita, calorias queimadas.

Saí da academia com meu dinheiro de volta.

Alguns anos depois, morando na Vila Madalena, aderi à caminhada. Agora sim, coisa de gente saudável de verdade. Nada de radicalismos, vai funcionar.

Nas primeiras semanas ia tudo bem, eu me dedicando, feliz por respirar o ar mais ou menos puro todo final de tarde.

Até que conheci o Caco. No começo a gente só se cruzava na esquina da casa onde ele morava. Trocava olhares e nada mais.

Achava aquela cor jambo, aqueles olhos caídos dele uma graça e me apaixonei no ato. Passei a ter um incentivo para sair de casa.

Depois de uns dias, rolou um olá e, a partir daí, minha disciplina foi prejudicada. Passei a caminhar somente dez minutos diários até a casa dele e a passar outros trinta trocando carinhos em plena rua.

Caco era um labrador chocolate que vivia sozinho em uma casa abandonada, sem uma alma viva, carente, em uma das esquinas da divisa entre Alto de Pinheiros e Vila Madalena.

A rotina de caminha passou a ser levar brinquedinhos, guloseimas e fazer carinhos pelo portão, sentada no banquinho que tomava emprestado do vigia.

Um belo dia, depois de semanas, ele se foi. Os donos malvados finalmente puseram a casa à venda e foram buscá-lo. Desisti da caminhada com o coração partido.

Ao longo dos anos, fiz algumas incursões até que razoáveis na Yoga, Pilates, até que aos 43 anos minha filhinha chegou.

Aí, gente, vocês sabem, fica I.M.P.O.S.S.Í.V.E.L malhar. Desde então, zero exercício.

Sei que tenho que voltar à ativa, os quase cinquenta mandam recado, mas talvez espere meu marido se animar.
Ah…já sei o que vocês podem estar pensando. Lá vem ela de novo com desculpas esfarrapadas.

0 comentário

 

Emprego por um fio. De Miojo

Eu, 21 anos, recém admitida na Nestlé, no departamento de Pesquisa de Mercado.

Não que fosse minha paixão, pesquisa de mercado, mas acreditava que entender o consumidor me faria uma marqueteira melhor.

Na época, a Nestlé se preparava para lançar seu macarrão instantâneo, tipo Miojo, e nós do departamento nos preparávamos para levar a campo uma pesquisa com consumidores, dessas em que as pessoas provam duas marcas, etc e tal.

O departamento ficava na sobreloja de um prédio velho da Rua da Consolação, tinha bastante espaço e uma ampla cozinha meio separada das salinhas dos analistas, em um anexo do escritório.

A regra era clara, não se podia cozinhar lá, a cozinha era apenas para preparos de produtos que seriam testados. Nossa chefe queria impedir a bagunça, o cheiro de comida, o amadorismo no ambiente de trabalho. E que a cozinha estivesse sempre a postos para qualquer necessidade do pessoal de marketing, nossos clientes internos.

Lá preparávamos as receitas de forma rigorosa seguindo as instruções dos rótulos, respeitando milimetricamente as quantidades e tempos indicados para depois podermos orientar os Institutos de Pesquisa que aplicariam o teste.

Pois bem, chegou o dia em que uma colega e eu, ambas novatas, fomos designadas para nosso primeiro projeto solo. A pesquisa do tal macarrão.  Às 14h teríamos que preparar a receita da Nestlé e do concorrente, para que o Gerente de Marketing e nossa chefe conversassem sobre a pesquisa provando as receitas.

Tenham em mente o seguinte: não éramos Millenials, hierarquia era algo importante. A visita do Gerente e a presença da nossa chefe dava voltas no nosso estômago.

Enquanto os dois conversavam na sala da chefe, minha colega e eu fomos para a cozinha iniciar os preparos.

No caminho, um probleminha.  Um cheiro de frango refogado no ar e, no fogão, as panelas que iríamos usar, cheias com arroz, farofa e outros acompanhamentos de um lauto almoço caseiro. A cozinha parecia tudo, menos profissional. Sabe final de almoço de domingo? Pois é, o cenário era esse.

Bem, paramos um pouco por aqui, pois é preciso contar sobre a Cleusa.

A Cleusa era a secretária da nossa chefe e as duas eram puro contraste. Ione, formal, mais séria. Cleusa, totalmente alternativa, zen, desencanada, um amor de pessoa vivendo quase todo tempo nas nuvens. Usava batas indianas, sandálias de couro hippie, mantinha uma coleção interminável de pedras energizadas sobre sua mesa e defendia o amor livre.

Ao final do dia, depois que a turma tomava seu rumo para casa, a Cleusa defumava o escritório cantarolando mantras com os olhos meio fechados em uma espécie de transe. Eu mesma ajudei muitas vezes no ritual enquanto esperava a hora de pegar o ônibus para a faculdade. Pela manhã, começávamos o dia com o ambiente livre de más influências, graças ao saravá que ela garantia.

A Cleusa lidava que era uma beleza com a Ione. Muitas vezes criava suas próprias regras e ia vivendo numa boa no mundo dela, driblando com sua doçura os possíveis conflitos, sendo muito querida por todos.

Uma de suas insurgências era justamente o uso da cozinha. Frequentemente ela e a Dona Cida, a faxineira, faziam almoços por lá. Eu, aliás, cansei de comer aquela comidinha caseira nos fundos do departamento, às escondidas.

Voltando. Lavamos as panelas mal e mal, do jeito que foi possível, mas na pressa e nervosismo pusemos os macarrões nas panelas com qualquer quantidade de água, no olhômetro, sem cronometrar o tempo de cozimento.

Íamos fazendo como em casa mesmo, experimentando os fios no garfo com a cabeça pra trás, quando fomos pegas no flagra. A Ione e o Gerente de Marketing olhando a cena.

Duas meninas, totalmente atrapalhadas, a cozinha uma bagunça, o cheiro de frango assado….

A bronca foi coletiva, em um paredão onde Cleusa, Dona Cida, minha colega e eu nos enfileiramos esperando o pior. O Gerente de Marketing, gente fina, foi embora remarcando a reunião para outro dia e rindo das duas meninas.

O macarrão foi lançado tempos depois e logo saiu do mercado. O que eu acho? Que teria sido melhor se a embalagem seguisse o nosso modo de preparo. Seria mais divertido, pelo menos.

Alguém está servido?

2 comentário

 

Clube de Campo e Bala Perdida

1993. Eu, 23 anos, recém- selecionada como trainee de vendas da Nestlé.

Seria um ano de trabalho em supermercados, padarias, mercadinhos, para depois voltar ao escritório e assumir o marketing de uma das marcas da empresa, já com alguma experiência do que é vender na prática o que se cria nas salas de reunião.

Admito hoje o que não podia dizer na época. Estava que era puro desânimo. Imagine, ficar um ano zanzando de carro pela cidade, sem nenhum conforto, me esfalfando para vender caixas de cereais, biscoitos, cafés, no verão escaldante de São Paulo.

Depois de alguns meses como promotora de vendas, aquela que limpava gôndolas, pegava caixas bem pesadas no estoque, arrumava produtos nas prateleiras, etiquetava preços, vestindo avental e espanador – naquela época não existia código de barras – finalmente assumi uma área como vendedora. E fui parar lá longe, na periferia da zona sul de São Paulo.

Não sei como funciona hoje, mas naquela época, o ano como trainee era um pedágio em que davam o osso pra gente mastigar, em um esquema meio militar: só quem sobrevive segue adiante.

Dos meus quase cem clientes, a maioria eram padarias e mercadinhos xexelentos de 1 ou 2 caixas, em endereços que simplesmente não constavam no guia de ruas. Ruas e vielas precárias, onde a recomendação dos próprios clientes era a de não me demorar, fazer o que tinha que fazer rapidamente e me mandar antes que a bandidagem saísse para trabalhar.

Ao final de alguns meses, estava exausta daquela rotina maçante e prestes a jogar o avental, literalmente, quando meu supervisor avisou:
– Você acaba de ganhar mais um cliente. O Supermercado Clube de Campo!

Um supermercado em um Clube de Campo! Que maravilha! Um oásis na minha rotina. Um respiro!  Já imaginei um simpático gramado, um mercadinho simples dentro do clube, onde poderia almoçar com certo prazer.

No dia da visita, fui em direção à Diadema e, na minha ingenuidade, não atinei que Clube de Campo simpático e Diadema não combinavam.

Fui indo, indo, indo, cada vez mais para o fundão. Até que, de repente, avistei o supermercado no meio de uma serra pelada poeirenta, coalhada de gente e cachorros esquálidos. Uma construção paupérrima cravejada de balas, com segurança armada de fuzil na porta.

Foi a gota d´água. Sentei-me na calçada em frente ao mercado e desatei a chorar com a cabeça entre as pernas. Após alguns minutos chamando a atenção de todos na rua, entrei no estabelecimento. Fui recebida pelos dois sócios: um açougueiro, com avental ensanguentado e facão na mão. E um senhor completamente banguela, com revólver na cintura.

Nada amistosos, os dois logo avisaram:
– A menina vai deixar a gente na mão, não vai aguentar o tranco. Aqui não vai ter venda pra você. Nem adianta voltar.

Fui ao supermercado Clube de Campo religiosamente por semanas a fio, sem vender um grão de café, um biscoito. Arrumando aquelas prateleiras sob o olhar desconfiado do Sr. José, o banguela.

Um dia, o José grita lá da sua salinha no mezanino:
– Ô, Nestlé, pode fechar uma venda aí, de cereais. Mas não abusa!

O Supermercado Clube de Campo tornou-se meu maior cliente, e o the best. Com ele vendi muito, bati metas e até ganhei um concurso de vendas.

As visitas ao Clube de Campo tornaram-se um prazer, uma janela acolhedora para os meus dias, pelas conversas que passei a ter com o José, um senhor simples, imigrante nordestino que havia prosperado à custa de muito trabalho, e que sentia um grande prazer nas conversas com uma jovem esforçada e entusiasmada pela vida. Aprendemos muito juntos, um sobre o mundo do outro.

Fui tratada sempre com muito respeito e carinho pelos dois, que ao seu modo tosco, cuidavam de mim, zelando pela minha segurança ao chegar e sair do bairro.

Meses depois recebi a notícia da minha tão esperada transferência para o marketing, no escritório da Nestlé. Não consegui me despedir de todos os clientes, eram muitos, mas fiz questão de ir à Diadema, dar um abraço nos meus amigos.

Sei que hoje o bairro da Serraria é outra coisa e também soube que existe um tal Supermercado Club de Campo (com b mudo mesmo) bem moderno por lá. Será o mesmo? Espero que sim. Eles bem que merecem.

A visão do paraíso

2 comentário