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Também sou invisível

Ando pensando muito sobre a invisibilidade. Todos nós, em algum momento da vida, em alguma situação, nos tornamos invisíveis.

Esse é um estado desconfortável, contrário ao desejo humano mais primitivo. Nascemos chamando atenção, crescemos exigindo cuidado, amadurecemos procurando destaque. Invisibilidade é a negação de um treinamento de uma vida inteira.

Eu, por exemplo, me sinto invisível em filas, quando me torno uma senha. Essa é a típica situação em que você é apenas um incômodo para o número seguinte.

A pior fila é a que nos chama pelo painel. Ser simpática, ter bom papo, escrever crônica, ser alta, ter pressa, estar feliz, ser um pouco atrapalhada não nos faz sermos notados. No relacionamento com o painel somos apenas números, que, se atrasados por ir ao banheiro, por assistir a TV da sala com indevida atenção, perdem seu lugar sem dó.

Há duas coisas cruéis que turbinam a invisibilidade na vida.

Uma é a velhice. Faça um simples exercício. Entre numa fila do supermercado. Você provavelmente será capaz de se lembrar de um cara jovem ou de uma moça na fila. Poderá até descrever detalhes de um ou de outro, mesmo com pouco tempo de observação, afinal, somos treinados desde cedo para perceber o belo.

Mas dificilmente prestará atenção especial em um velhinho ou velhinha. Você até poderá saber que há um deles na fila, mas não registrará suas feições, perceberá seu estilo, poderá dar detalhes sobre eles.

Lógico que prestamos atenção nos idosos queridos que nos cercam. Mas isso já é questão de amor. Falo do status quo da velhice que, por definição, é fase da vida em que a pessoa vai perdendo o poder da visibilidade. Ainda mais aqui, no nosso país, onde a cultura privilegia a juventude.

Outro dia, batendo papo com minha irmã mais velha, ríamos do nosso desejo de, ao envelhecermos, podermos deixar de lado a vaidade sobrevivente de mulher, que tanto trabalho dá no dia-a-dia.

Sabe aquela coisa de poder deixar o cabelo branco, engordar sem se preocupar com o pneuzinho abdominal, de poder botar aquele sapato feio, mas confortável, sabendo que ninguém vai mesmo prestar atenção?

Sei, sei, você poderá dizer: que absurdo, o que importa é nós nos sentirmos bem. Sim, mas quanto de nos sentirmos bem resulta do que nos esforçamos para projetar no outro? Eu decidi, vou ser uma velhota bem largadinha.

Só tem um problema nessa escolha. Vivemos em uma época em que a terceira idade é convocada a se reinventar, até pela expectativa de vida longeva. Isso vai dar o maior trabalho, já antevejo. Bem na minha vez vou ter que adiar os panos de prato bordados. C´est la vie.

Pelo menos espero que haja a justa contrapartida, que a gente de certa idade, a sustentar o país, tenha seu lugar ao sol.

O trabalho é, definitivamente, outro catalizador da invisibilidade. Faxineira de banheiro público, caixa de farmácia, garçom, porteiro, manobrista são candidatos fortes a passarem em brancas nuvens.

Em alguns casos, a triste expectativa de quem é servido por eles é que essas pessoas não queiram ser percebidas, como se a invisibilidade fizesse parte da eficiência. Quanto menos interação, melhor.

Motoboy bom é o que fala pouco, entrega certo, rápido e desaparece como fumaça. Faxineira boa é a que nunca fica na nossa frente quando entramos no banheiro. Caixa competente é o que não fala nem pede informação, só registra e cobra mudo. Porteiro que cumprimenta, ai que aborrecimento! E manobrista que ousa mexer no banco, então? Como ousa?

Dia desses entrei em um banheiro de restaurante de estrada. Esperava o pior, talvez por isso, fui tão surpreendida. O lugar era impecável, perfumado e brilhava mais do que o banheiro de casa.

No canto, descansando apoiada no rodo, uma senhorinha, a faxineira. Não me contive, dei parabéns pelo trabalho maravilhoso e disse que aquele era o banheiro mais limpo do mundo. Agradeci pela sua dedicação e fui indo embora, satisfeita por deixá-la feliz. A pobre faxineira levou um susto, acostumada à total invisibilidade, recebeu o elogio com grande espanto. Pode até ter pensado que era brincadeira.

Como qualquer um, tenho meus momentos de pressa, má educação, mas, geralmente boto reparo nas pessoas. Sou do tipo que conversa com o caixa da farmácia, com motorista de taxi, motoboy. E quase sempre me surpreendo com a receptividade das pessoas.

Tenho ganhado muito com isso.

 

 

 

 

 

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Enxaqueca e outros ridículos

Não sei se vocês sabem, mas enxaquecosos são seres rastejantes, humilhados, dispostos a tudo pelo alívio imediato. Damos senha de banco, fazemos cartão da Renner, largamos o glúten e tudo mais que for preciso.

Respondendo à pergunta que você está fazendo agora. Sim, já fiz acupuntura, Pilates, Yoga, tomei homeopatia, florais de Bach, fiz massagem (uma delícia, mas no meu caso foi só isso), fui a 3 pais de santos diferentes. O último me chacoalhava todinha pra por as coisas da cabeça no lugar. Nada funcionou.

Semana passada  me resignei a procurar novamente um neurologista. Coisa que adio há anos. Mas em meio a uma crise inclemente, que já me maltratava há 3 dias, resolvi adiantar o expediente fazendo a pior coisa nessa situação: fui ao Google.

“Enxaqueca, alívio imediato”. Junto com a enxurrada de chás de gengibre (ah! Já tomei litros também), batatas geladas na testa e outras recomendações, surge ELE.

O salvador, o picareta,  que há 15 anos me prometeu a redenção, a cura, mediante alguns muitos mil reais e suspeitas injeções. E  que devolveu meu dinheiro na primeira ameaça de escândalo. Suspeito, não? E estava lá do mesmo jeitinho, pontificando, prometendo, seduzindo.

Lembrem-se do que falei: seres rastejantes….

Pois muito bem. Pensei, o cara é charlatão há tantos anos, tem que ter aprendido algo, não é possível. Ainda dá expediente no mesmo endereço. Merece crédito! Ainda por cima, menciona Harvard! Só tinha uma coisa ainda suspeita, ele dizia que o novo procedimento podia não dar certo de cara…

Já tinha tomado a decisão. Mandei a Laura, minha filha de 4 anos,  para fora do quarto e comecei o procedimento, que era simples e eficaz, como tudo na vida deve ser! Gostei.

Mergulhei chumaços de algodão em água gelada e fui enchendo a bochecha por dentro, até não poder mais. De quando em quando renovava a água gelada. Depois, coloquei pedaços de gelo na testa e apertei bem com um lenço estiloso que eu tenho.

Fiquei parecendo o Marlon Brando em Poderoso Chefão, por uns 30 minutos.

A dor só piorava. Eu já ia me encaminhando para o choro arrependido quando, morta de curiosidade, Laura abre a porta e vê a cena.

– Mãe, que brincadeira nova é essa?

Meia hora depois, meu chapa, meu amigo, o entregador da farmácia me traz o bom e velho Sumaxx.

Junto com o alívio, voltam a autoestima, senso crítico e a promessa de marcar logo um consulta.

 

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A gaveta proibida

Férias de infância sempre rendem boas lembranças, mas duvido que a maioria tenha se iniciado na leitura erótica pelas mãos dos próprios avós, como foi o meu caso.

Não se assustem. Meus avós eram tão pudicos como os de vocês, mas tinham uma neta bisbilhoteira.

Nos idos de 80, havia um sistema de compras de livros por assinatura, uma espécie de Avon literária. Você escolhia os títulos pelas capas e por um breve resumo e a empresa enviava os livros pelo Correio. O máximo da conveniência para a época.

Meus avós eram ávidos leitores, assim como eu. Aos 10 anos eu lia sem parar. Ainda mais na casa deles, onde não havia muita saída.

As noites eram enfadonhas, pois a única alternativa era assistir todos os telejornais, um na sequência do outro, até decorar as notícias e ir dormir vencida pelo tédio. Meu avô General era visceralmente contra novelas da Globo, que considerava má influência.

Eu ia de suspense, romance, policial, ficção a autoajuda, lendo os livros que chegavam e que eram generosamente repassados por eles à neta mais nova, no caso, eu.

Acontece que esses não eram nem de longe os melhores livros. Os verdadeiramente interessantes ficavam bem guardados na gaveta do criado-mudo dos meus avós. Sim, cada um tinha a sua coleçãozinha privada.

Lá eu encontrava as estórias sensualmente provocantes de Bárbara Cartland, a quente coleção de Sidney Sheldon com suas cenas explícitas que eu compreendia apenas em parte e muitos outros livros como Lolita, de Wladimir Nabokov, O Amante, de Marguerite Duras, apenas para citar alguns dos quais me recordo pelo nome.

Era uma aventura. De dia, roubava um livro da pilha escondida na gaveta, à noite lia a obra na penumbra, apavorada, porque caso fosse pega seria meu fim. No dia seguinte, recolocava o livro na mesma posição memorizada rezando para que eles não percebessem.

Li muito nas férias, até que minha alegria acabou. O Círculo do Livro faliu e meus avós deixaram de lado a leitura, provavelmente já cansados das aventuras literárias.

Mas foi aí que a sorte sorriu pra mim.

Quando esperava que minhas incursões clandestinas houvessem chegado ao fim, elas recomeçaram muito melhor. Pela televisão.

Explico. Nas noites de sexta-feira eu podia ficar acordada até bem tarde. Nessas ocasiões, assistia filmes de terror na TV Record com minha mãe, que me acompanhava, já que eu tinha pavor de ficar sozinha com cabeças cortadas na geladeira, morros uivantes, castelos assombrados. Naquela época, terror era assim, mais ingênuo mesmo.

Assistimos juntas toda a série de filmes até que ganhei certa coragem e liberei minha mãe da tarefa de me acompanhar nas reprises que iriam começar.

Passaram-se algumas sextas-feiras assim, até que, sem mais nem menos, a emissora mudou a programação do horário, passando a veicular os clássicos da pornografia brasileira, no lendário programa Sala Especial.

Minha mãe ia dormir tranquila, achando que deixava sua filhinha assistindo filmes de terror, quando, na verdade, o que eu via mesmo era muito Hugo Carvana, Lilian Ramos, Vera Fischer, Nicole Puzzi, David Cardoso, Matilde Mastrangi, Aldine Muller, e claro, Sônia Braga aos borbotões.

Os filmes eram muito mais inocentes do que qualquer minissérie de hoje, mas eram o que se tinha de ousado para a época.

Isso durou uns bons meses, até que, descoberta por um irmão, fui delatada sem dó nem piedade, para nunca mais assistir a um só clássico pornô brasileiro.

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