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O Gorila e as Meias de Seda

Algum mês de 1996. Aniversário da digníssima Araras, pequena cidade do interior de São Paulo.

Evitarei nomes.

Nessa época, eu trabalhava no marketing de uma famosa multinacional, que tinha em Araras uma de suas mais importantes fábricas, um orgulho para a cidade.

O Diretor da área, meu chefe, um sujeito de poucas palavras e autoridade inquestionável, mandou que alguns colegas e eu representássemos a multinacional na solenidade da Câmara Municipal e avisou: nada de faltar porque é politicamente importante para nossa relações com a cidade e a Prefeitura.

No dia, lá fomos nós, resignados para o tedioso programa, um dia perdido em nossas vidas . A perspectiva de viajar 2 horas em um calor desgraçado e enfrentar discurso de vereador desanimava.

Chegamos cedo por precaução e, como a Câmara ficava dentro de um parque bonito, resolvemos dar uma volta. Surpresa! Lá dentro havia um pequeno zoológico. Huumm, que agradável….

Vimos alguns animais, demos risadas, fizemos piadas, quando entramos em uma ruela sem saída do pequeno zôo: a rua do Gorila. Por que letra maiúscula? Porque o cara era enorme!

Por absoluta falta do que fazer, começamos a provocar o infeliz na porta da jaula, imitando o pobre coitado. A cena devia ser ridícula. Nós, de executivos, gravata, blazer, meia de seda, salto alto, em um comportamento infantil. A prova de que no fundo somos todos crianças brincando de coisa séria. E o Gorila, totalmente confortável como veio ao mundo e cada vez mais irritado.

Sinceramente, até hoje não sei como aconteceu. Em uma fração de segundo, o Gorila disfarçadamente se abaixou e raspou um bolo de bananas amassadas do chão, que jogou em cima da gente, urrando de prazer, às gargalhadas. Ploft.

Saímos correndo pelo lado errado da rua sem saída, exatamente o que a besta-fera parecia querer. Encurralar vítimas era sua especialidade.

O Gorila ficou lá, em êxtase, só esperando a nossa volta. Um ser totalmente superior.

Como voltar? Passando pela jaula dele levaríamos mais bananas! Escalar o muro da ruela seria impossível. Ficamos lá, paralisados por alguns segundos, crianças pegas na travessura e sem graça uns com os outros, pelas maçaroca que começava a escorrer pelos ternos, meias de seda e saltos altos.

Não houve jeito, tivemos que voltar pela rua, levando cada um mais um banho de potássio.

Chegando à Câmara, graças à nossa antecedência, pudemos nos esgueirar até os banheiros e nos limpar razoavelmente, passar uma aguinha no cabelo, etc e tal. Mas o perfume ficou….

Em alguns minutos entrávamos na solenidade, importantes, elegantes e muito sérios para representar a poderosa empresa.

Nosso chefe ficou feliz da vida.

Agora me conte algo que você já fez e te mata de vergonha!

Soberano e muito mais elegante que a gente

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Banzo

Nunca gostei de viajar a trabalho. Nisso acho que sempre fui diferente da maioria dos meus colegas. Ou pelo menos, não disfarçava.

Acontece que por força da minha profissão, volta e meia estava eu lá no aeroporto, embarcando para países distantes.

Lógico que por conta das constantes viagens conheci lugares incríveis que jamais teria condição de conhecer por conta própria, mas por algum mecanismo, não conseguia separar muito bem trabalho e lazer.

Além disso, sou sentimental, e quase sempre sentia saudades de casa, vontade de voltar pro meu canto, estar com a minha gente.

Isso não contava pra ninguém. Sabe como é, podia pegar mal para uma executiva, já que todo mundo à minha volta fazia questão de deixar claro que adorava uma reunião global. Arh!

Pois bem, um belo dia tive que ir à Chicago, em um momento complicado da minha vida pessoal, em que mais do que nunca queria estar aqui. Embarquei contrariada e assim fiquei a viagem toda, disfarçando a angústia da distância. Sabe como é, a ilusão de que estando perto as coisas do amor se resolvem melhor. Pura ilusão, diga-se de passagem.

Tamanho peso me trouxe junto uma gripe forte daquelas com tosse de peito cheio.

Finalmente chegou o dia da volta e assim que entrei no avião desabei na poltrona executiva. Decolagem, etc e tal e lá vem o jantar.

Agora me falem, vocês já tiveram o desprazer de viajar com um homem inconveniente ao seu lado? Do tipo chato, grudento? Justo neste dia, eu tive.

O cara, um americano, não me dava sossego. Inclinava em cima de mim pra falar, fazia perguntas demais e insistia para que eu provasse o seu jantar. Sem noção.

Nesse momento lembrei das aulas de história do colégio. E sobre como me impressionou a história do Banzo. A saudade imensa de casa que os pobres escravos africanos sentiam e que os levava a morrerem do que hoje se chama depressão. Mais do que nunca eu sentia um banzo do Brasil, uma vontade de abrir a porta do meu apartamento, de sentir o perfume da minha casa.

Ao mesmo tempo uma ideia genial me ocorreu.

Comecei a tossir fortemente em cima do americano, na direção do seu prato, me inclinando sobre ele, falando na direção do seu rosto, pedindo ajuda, e dizendo:
– Sorry, I have an African desease. It´s Banzo.

O cara entrou em desespero, se afastava como podia de mim, mas eu continuava tossindo e tossindo. Tentou mudar de lugar, sem sucesso. E passou o resto da viagem encolhido na poltrona, logicamente sem jantar.

Cheguei feliz da vida em São Paulo, dei um tchauzinho animado pra ele e desejei boa estadia.

Lar, doce lar.

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Saudades de casa

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