CATEGORIA HOMENAGENS SINCERAS

Camurça da sorte

Eu, 19 anos, estagiando na Nestlé, mais precisamente, na Área de Serviço ao Consumidor. Na época, a área reunia não só o pessoal que cuidava dos contatos com o consumidor para dúvidas e reclamações, mas também a Cozinha Experimental, para o meu deleite.

Adorava o lugar, pelo clima gostoso da casa do Pacaembu – bairro arborizado de São Paulo – pelas pessoas, pela perspectiva de aprender e, para não mentir, pelos quitutes que saíam das mãos daquelas cozinheiras experientes.

Meu trabalho era a coisa mais aborrecida do mundo. Digitar fichas cadastrais de consumidores reclamões ou gente que entrava em contato para pedir receitas, para um computador pré-histórico do final dos anos 80.

Minha chefe, a Sandra Naime, era muito bacana e deixava escapar um certo constrangimento em me dar a incumbência que me deixava horas a fio de frente para aquela geringonça.

Eu estudava na ESPM pela manhã e ia para o estágio à tarde, logicamente de ônibus, pois era muito dura.

A grana do estágio não era ruim, mas para a minha situação era pouca. Vendia os tickets alimentação para as secretárias, coisa para a qual a minha chefe fazia vista grossa. E para garantir o pagamento da faculdade, resolvi empreender.

Fui até a Ladeira Porto Geral, investi o pouco que tinha numa bela camurça preta e algumas bijuterias variadas e comecei minha revenda porta a porta, ou melhor, mesa a mesa.

Chegava cedo na Nestlé, chamava a mulherada e abria a camurça. Fiz excelentes vendas e paguei algumas mensalidades da faculdade graças ao novo negócio.

A coisa prosperava. E eu era pura animação.

A Sandra fingia que não via. Mas a coisa foi ganhando volume.

Neste ponto tenho que parar e contar para os não familiarizados com ambientes corporativos como funciona o embotamento gradual destes lugares. A gente vai comprando as regras, seguindo o comportamento padrão, assumindo que seriedade e sisudez é o caminho correto das coisas. E com isso vai perdendo o humor. Aconteceu comigo algumas vezes, e quem trabalha em empresa talvez admita que o mesmo aconteceu consigo em algum ponto da carreira.

Acontece que a Sandra era diferente, não se enquadrava muito, tinha um espírito rebelde, que manteve até o final do seu tempo de Nestlé. Seguia as regras, lógico, mas sempre que possível flexibilizava em benefício das pessoas. Suspeito que sentia até um certo desconforto naquele cargo.

Um dia chego para o trabalho e ela me chama na sala. Séria. A mulherada na hora entendeu que a coisa ia pegar pro meu lado.

-Lívia, qual é o problema? De quanto você precisa para parar de abrir a camurça aqui?

Gelei. Primeiro porque era uma semibronca, segundo porque a conversa cheirava a prejuízo, dado o meu alto estoque na ocasião.

Ao final da conversa, saí da sala com um acordo. Receberia o salário integral e poderia continuar a trabalhar meio período para estudar, desde que parasse com o camelódromo no escritório.

Um pouco disso foi a bondade da Sandra, outro tanto, sem falsa modéstia, foi a minha dedicação às fichas, que imputava me auto impondo uma meta diária ambiciosa. Ao final de alguns meses a pilha gigantesca já estava eliminada e eu já executava outras tarefas mais divertidas.

O dinheiro bem vindo me ajudou demais e garantiu minha formatura até o final do estágio.

Nunca mais abri a camurça. Bem…pelo menos não na Nestlé. Muitos anos depois, não resisti e abri uma loja de bijuterias, a Drissée. Mas isso é papo para depois.

No fundo, todo paulistano adora

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Como comprar um apartamento nas lojas Marisa

Uma sincera homenagem ao amigo Elliot.

1997. 27 anos de idade. Morando com pai e mãe, muito a fim de ter meu canto, mas nada planejada para o que significava aquilo.

Já trabalhava como gerente de uma multi, ganhava muito bem. Poupava quase nada. Sabe como é, aquela história de demanda reprimida, anos a anos de classe média apertada, filha de professores. Querendo de um tudo, podendo muito pouco. De repente a grana começa a entrar, vem o carro zero, roupas bacanas, restaurante dos Jardins, viagem pra fora, ajudas pra família, e por aí vai. Ou melhor, foi, o meu dinheiro.

Na prática tinha uma pequena poupança.

Visitei apartamentos para alugar na Vila Madalena. Na época, um bairro bem viável financeiramente. Depois de alguns carpetes gastos, cozinha de pisos encardidos, prédios com entradas lúgubres, cheguei à conclusão de que deveria tentar um imóvel em construção. Esperaria alguns meses, sem problemas.

É aí que o Elliot aparece na história. Um sujeito que se casou com a minha melhor amiga, anos antes. Casaram-se e, por herança, ele entrou na minha vida. E ficou.

O Elliot é daqueles amigos com senso de humor típico dos resmungões, bem reclamão, com enorme coração, inteligência ímpar e tremendo bom gosto. Pronto, a receita certa para se tornar querido por muitos.

Logo de cara deu liga, carinho recíproco de irmão mais velho e irmã caçula.

Bem, voltando ao apartamento. Era um domingo ensolarado de maio. Acordei disposta a comprar o jornal e procurar imóveis. Liguei pra contar a novidade pro Elliot. Eram 10 horas.

Às 10h30 já tinha localizado um prédio na Rua Fidalga. Iria até lá.

Às 11h30 estava apaixonada pelo apartamento, com a firme crença de que seria feliz ali.

Às 12h liguei de volta pro Elliot avisando que havia dado o cheque do sinal e assumido prestações.

Proibida de fazer qualquer coisa, de voltar a falar com o corretor até o casal chegar, o Elliot gritava ao telefone:
– Lívia, não se compra um apartamento como se compra calcinhas nas lojas Marisa! O que foi que você assinou? Não assina mais nada! Tô chegando.

Lá pelas 12h30 chega o casal Elliot e Serena, visivelmente descabelados.

Enquanto ele vai checar as condições de entrada, ameaçar desfazer o negócio precipitado, Serena e eu olhávamos a vista e já planejávamos a decoração, cor das paredes, primeiro brinde, em êxtase!

E assim foi, em todo o processo da negociação, estava lá o Elliot comigo. Brigando com a construtora, ameaçando desistir da compra.

No meio de uma das discussões em que fui orientada a ficar calada e fazer cara de desinteresse, o Elliot dizia:
– Vocês sabem o calibre desta compradora? O cargo dela? O salário? Amigo, a construtora devia é dar um desconto, olha esse perfil! Parecia um pai brigando na escola.

E eu lá, adorando tudo aquilo.

Poucos meses depois me mudei pra Rua Fidalga, onde morei e fui feliz por muito anos.

Apartamento Já!

Você já fez alguma loucura assim? E que deu certo. Muito certo?

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