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Ela de volta

Ela sofria por amor, eu pulava amarelinha. Ela voava em seus sonhos, eu colecionava papeis de carta.

Nossas vidas corriam em paralelo, sem tangências.

Foi assim desde sempre, porque havia um descompasso.

De repente, ela foi tirada de mim. Fiquei anos sem ela. Ela sem mim.

Não trocamos confidências sobre meu primeiro amor, sobre a primeira menstruação, sobre as pequenas alegrias do dia a dia. Nem eu soube de sua vida, digo, da vida que era vivida dentro do seu coração.

Eu não a vi grávida, não partilhei da sua maternidade, não soube dos seus medos e conquistas.

Por anos. Até que, um dia, ela voltou para mim. Para sempre. Para tudo.

Minha irmã tinha nove anos quando eu nasci. Nossa diferença de idade nos mantinha em mundos distantes. Mas não era só isso, havia também personalidades opostas.

Traços delicados e perfeitos, olhos verdes desses que convidam a um mergulho profundo, pele morena, cabelos castanhos quase negros. Minha irmã era linda. Linda e tímida. Falava pouco e gostava de meditar. Era uma garota sonhadora.

Eu, menos bonita e muito mais falante, era extrovertida e talvez mais atirada para as coisas. Pelo menos era o que todos diziam.

Eu tinha orgulho da sua beleza. Achava lindo minha irmã despertar encanto nos outros. Até a criticava por não saber valorizar-se como devia, puro desperdício na minha opinião de criança.

Minha irmã casou cedo. Aos dezoito foi viver em Belém do Pará, em um tempo em que a distância desconectava. Sem internet, havia somente os telefonemas interurbanos, caros e quase sempre dedicados aos meus pais. Essa distância não diminuiu o bem querer. Isso nunca. Mas me fez deixar de pensar em minha irmã como alguém com quem pudesse contar.

Acontece que a vida é mágica e, um dia, ela voltou.

Seu marido foi transferido para Florianópolis, e eu, já adolescente, passei a frequentar sua casa, em longas férias a beira mar.

Foi uma espécie de recomeço. Um tempo de finalmente conhecer minha irmã.

Longas horas sob o sol, risadas, passeios. Um tempo em que era possível lembrar dos nossos momentos de infância e de falar sobre sonhos. Sim, minha irmã tinha sonhos e agora eu os conhecia. Um tempo de experimentar suas receitas na cozinha e de vê-la sendo mãe.

Tempo de explosão de alegria e abraços nas chegadas. De lágrimas nas despedidas. De cartas que passaram a ser escritas para preencher o tempo entre as férias, para diminuir a saudade.

Nessa época eu já entendia mais das coisas da vida, podia conversar de igual para igual e entender sobre as escolhas que aquela jovem mulher fazia.

Novas cidades vieram, muitas férias, anos se passaram até que eu me transformasse em mulher adulta, sempre com ela ao meu lado, minha irmã-mãe.

O que eu mais gostava entre nós era a capacidade que cada uma tinha de admirar a vida da outra, sem julgamento. Do genuíno interesse que tínhamos pelo que cada uma vivia. Eu, executiva, solteira, viajada. Ela, dona de casa, interiorana, com cinco filhos. Cada uma tinha sua sabedoria e uma aprendia com a outra.

Havia uma confiança recíproca, muito linda, que nos dava a certeza de que estaríamos sempre lá, com os braços abertos.

Foi minha irmã quem me consolou nas dores de amor, quem me preparou no dia do meu primeiro casamento. Foi nos seus braços que eu chorei ao me separar, quando ela vinha de longe aos finais de semana para me colocar no colo e me fazer dormir mais tranquila. Foi minha irmã quem me incentivou a procurar meu amor e soube desde sempre que eu seria feliz. Minha irmã assistiu nascer em mim uma mãe no dia em que minha filha adotiva chegou.

Eu também estive ao seu lado, sempre que possível. Vi essa bela mulher amadurecer, criar seus filhos e finalmente passar a cuidar mais de si, o que me encheu de alegria. Vi minha irmã finalmente perceber sua beleza e seus talentos. Vi minha irmã ganhando mais segurança de si. Vi minha irmã-mãe construindo uma rede de afeto ao seu redor, de gente que também a admira e a quer perto de si.

Hoje vejo na minha irmã uma linda avó de três netos, que têm o privilégio de mergulhar nos mesmos olhos verdes em que eu tantas vezes me perco.

Por que demorei tanto para escrever sobre ela?

Porque sempre escrevi mentalmente sobre essa bela mulher. Nem sempre conseguindo colocar no papel o tamanho do meu amor por ela.

 

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De olho no vizinho

Na vida há duas certezas, o nascimento e a morte, a elas eu acrescento mais uma: vizinhos.

No berçário da maternidade tive os meus. Não me lembro de nomes, pela breve convivência e neurônios ainda em formação, que não me permitiram grandes conexões na época.

Mas lembro-me bem dos meus vizinhos de infância e juventude. Com um certo romantismo sim, afinal essa é uma das vantagens da distância do tempo.

Havia os da simpática vila de sete casas geminadas, em Pinheiros. A família da casa 4, um casal de japoneses e sua filha, que regulava em idade comigo. Como eram educados, gentis, discretos e como aquela menina, ainda criança também, era pura meiguice.

Foram eles que me apresentaram uma coisa fantástica: pequenas árvores comestíveis, cor creme. Demorei um bom tempo para descobrir que as tais arvorezinhas também eram vendidas no supermercado. Até isso acontecer, pensei que naquela casa se comia magia.

Também me lembro da Tia Leila, da casa 1. Uma mulher dos seus vinte e tantos anos, que a mim pareciam bem mais porque quando se é criança tudo é maxi, tudo é multi.

Mãe de duas pequenas crianças mal educadas, aquela mulher era linda para mim. Longos cabelos platinados, unhas pintadas de branco, à moda da década de 70, pulseiras de corrente e um delicado perfume que se misturava com o odor dos seus cigarros Charm. Para aumentar minha admiração, Tia Leila era professora de música, tocava lindamente seu piano.

Tia Leila às vezes me dava carona na volta da escola, onde as crianças da vila estudavam, ao som do Roberto Carlos. Ainda criança, dava para sentir que a emoção excessiva com a trilha sonora tinha a ver com uma infelicidade que ela não conseguia disfarçar. A ingenuidade da época não me deixava entender as razões da tristeza naquele olhar.

Anos depois sua família se mudou para o interior e perdemos contato. Outro dia, fui atrás dela pela internet, sem sucesso. As poucas pistas que encontrei sugerem que ela já faleceu.

Na casa 5 havia uma mãe solteira, imperdoável para a época. A moça, meio hippie, com chinelos de couro e calças Lee, criava seu filho na casa, juntamente com seus pais idosos e irmãos já moços.

Um dos irmãos era o amor platônico das pirralhas da vila. Rei, seu apelido, era a cara do Pedro Aguinaga e estacionava um buggy amarelo na vila. Sempre que dava as crianças entravam no carro e brincavam nele às escondidas. Além de bonito, Rei era simpático com a meninada. Dava um sorriso para cada uma de nós, o que só fazia alimentar a nossa paixão.

Na adolescência, minha família se mudou para uma casa esquisita, em uma rua mais estranha ainda: a Rua Tinhorão. Uma rua com casinhas classe média, incrustrada na divisa dos bairros de Higienópolis com Pacaembu, bem ao lado da Faculdade FAAP.

A impressão que eu tinha é de que os moradores dali estavam sempre de passagem, assim como a própria rua, uma curta ligação entre outras duas vias mais importantes do bairro. Por ali, só passava quem pretendia ir a outro lugar.

A Tinhorão era uma mistura de comércio que não ia pra frente com moradores invisíveis. De todos os vizinhos daquela rua esdrúxula, a família da casa ao lado foi a que mais me marcou. Um casal portenho que vendia empanadas no andar de baixo do sobrado, de um jeito bem suspeito.

Para cada cliente que chegava e tocava a campainha (já começa por aí, que empanaderia funciona a portas fechadas?), uma abertura mais que rápida da porta sob olhares assustados dos donos. Meu pai não perdoava: “Um dia a polícia ainda baixa e prende todo mundo”.

No fim, a coisa ficou descarada, nem a placa na porta eles mantinham mais. Somente os olhares assustados e os clientes que desapareciam lá dentro e demoravam horas comendo empanadas. Deviam ser muito boas as danadas. Seriam empanadas mesmo?

Ficamos poucos anos lá e eu dei graças a Deus por irmos embora. Anos depois, uns amigos me convidaram para almoçar em um charmoso restaurante do bairro. Quando chego, era a minha própria casa da rua Tinhorão. Bem, só mais uma das muitas estranhezas daquele ligar. Mas outro dia conto como foi isso.

Adulta, vizinhos já não despertam a mesma curiosidade de quando se é criança, mas continuam a ser famílias, com suas histórias, sonhos e modos de vida. Fico me perguntando como a Laura, minha filhinha de quatro anos, descreverá seus vizinhos um dia. Certamente como eu fazia quando criança, com cores vívidas e o mesmo interesse.

 

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Amiga nova aos 40?

Uma das coisas difíceis com a idade é fazer amizades verdadeiras. Sabe como é, depois dos 40 encaixar vidas é quase impossível.

Se a amiga é casada e você não, problema. Liberdade em patamares bem distantes.

Se ambas são casadas, o santo dos maridos têm que bater. Imaginem a loteria!

Se ela tem filhos e você não, haja paciência pra aguentar fotinhos fofas, aniversário de 2 anos, reclamação da babá.

Isso não acontece quando a gente é jovem. A gente gosta dos amigos e pronto. Às vezes até apesar deles próprios.

Pois eu ganhei nesta loteria aos 40.

Um belo dia, marquei um almoço com meu irmão. Por um mal entendido nos desencontramos e eu fui parar em um simpático restaurante por quilo no centrinho da Granja Viana: a Cozinha de Santo Antônio. Adorei a comida, a decoração e acabei me tornando cliente assídua.

Cozinha de Santo Antônio

Praticamente todos os dias passava meu prato pela balança e recebia um simpático sorriso de uma mocinha loira do caixa, a dona.

Por anos, nossa amizade se limitou a esses sorrisos.

Muitas vezes, e ela nem sabe, eles me alegraram em dias difíceis. Descobri depois que eu não passava desapercebida. Ela também gostava de me observar.

A coisa foi assim por muito tempo, trocávamos poucas palavras e a partir delas foi-se criando uma cumplicidade. Uma sensação de conhecer bem uma à outra sem nada sabermos de nossas vidas.

Um dia, do nada, depois de tanto tempo, sentamos para conversar depois de um almoço tardio em seu restaurante. Descobrimos gostos parecidos e um sonho, imaginem. De nos aventurarmos em algo diferente na vida.

Sem nem muitos por quês, confiamos uma na outra a ponto de decidirmos realizar esse sonho juntas. Loucura na opinião de alguns.

Em poucos meses abríamos a Drissée, nossa loja de bijoux também na Granja Viana.

Nossa linda loja

Cuidamos de cada detalhe da nossa linda loja do mesmo jeito que íamos cuidando da nova amizade. Com amor, atentas aos detalhes, querendo muito que desse certo.

Uma hora a sociedade acabou. Nenhuma sociedade termina porque tudo aconteceu como se espera, mesmo que o inesperado sejam coisas boas até.

A loja tornou-se inviável, mas nos nossos corações, sem que precisássemos falar sobre isso, tomamos a firme decisão de permanecermos amigas. Nos desapegamos de tudo que havíamos construído, menos de nós mesmas.

Ao final, o incrível aconteceu. Éramos ainda mais amigas.

Hoje em dia, somos irmãs, vizinhas, comadres e eternas sonhadoras. Juntas.

A Cris, quem conhece sabe, é destas mulheres de alma pura, força guerreira, abraço amoroso. Uma vez cativada por ela, você está perdida!

Amizade

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