CATEGORIA ADOTAR É SER MÃE

Adoção: Capítulo II – É menina!

A entrega da papelada do processo de adoção me trouxe uma sensação inédita, pela primeira vez havia algo irreversível para mim. Um filho sempre é, logicamente, mas buscar intencionalmente alguém e trazê-lo para a minha vida era a maior responsabilidade que eu já havia assumido.

Junto, veio o sentimento de que esta criança merecia a melhor mãe que eu pudesse ser, toda a minha dedicação, pela coragem de percorrer este difícil caminho até sua família.

Aguardamos um par de meses até sermos chamados para a uma entrevista com a psicóloga do Fórum.

O Perci, mais calejado que eu na lida com o pessoal da Assistência Social (já tinha 5 filhos adotados, lembram-se?) encarou mais numa boa. Eu fiquei bastante ansiosa. Quem não ficaria?

A avaliação do casal e a minha avaliação como candidata a mãe era algo necessário, ninguém questiona isso, mas o fato é que existe aí uma injustiça divina. Somente mães adotivas têm que se provar capazes.

Eu não tinha experiência com psicólogas, o máximo que eu havia tido eram entrevistas de emprego e eu temia avaliações sutilmente intimidadoras, feitas pra te pegar na curva.

Meu casamento era estável, feliz e eu rezava para que conseguíssemos passar essa mensagem, para que a psicóloga fosse experiente o suficiente para relevar meu nervosismo.

No dia fomos Perci e eu, de mãos dadas e suadas, para a sessão.

Ensaiei muito, escolhi as melhores palavras, o gestual mais adequado…mas na hora não precisei de nada disso. Imaginem uma mulher simples, compreensiva sobre o que aquilo significava para nós, segura, calma ao falar e visivelmente bem intencionada. Essa era a Regina, a psicóloga.

Em uma pequena sala bagunçada do Fórum, fomos ouvidos por aquela mulher, como se não houvesse outro compromisso no seu dia, como se aquela fosse sua única prioridade.

Eu sabia que em algum momento da conversa falaríamos sobre o perfil da criança desejada, algo muito sensível e mais uma peculiaridade da maternidade adotiva.

O assunto martelava minha cabeça sem parar em forma de conflito. Por um lado sonhava e acreditava que havia uma filha menina no meu destino (já falamos sobre isso, lembram-se?), por outro lado, tinha medo de interferir no destino impedindo que um filho homem chegasse até nós pela escolha feita. O que fazer? Ignorar meu sonho? Abrir-me para outra possibilidade? Simplesmente não conseguia resolver isso dentro de mim.

Precisei da sensibilidade, da experiência e habilidade da Regina para me acalmar o coração.

Com sua voz calma, ela me disse: se a vocês pais adotantes é dada a oportunidade da escolha, da realização de um sonho, por que não realizá-lo? Que mal há nisso? Sejam absolutamente honestos com o seu desejo, e, sobretudo, não se preocupem em fazer bonito para mim ou para quem quer que seja, nosso objetivo no Fórum é que a adoção dê certo. Que a criança e vocês sejam felizes.

Pois foi assim que saímos de lá, felizes, tendo encomendado nosso bebê. E este estado de espírito foi importante para enfrentar a espera que viria.

Pelo perfil, menina, bebê de meses, sem irmãos com os quais ela convivesse (não admitíamos a ideia de separar irmãos) nossa espera seria mais longa.

Que fosse. Nossa filha já devia estar sabendo que era esperada!

É menina, e linda!

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Adoção: Capítulo I – Fazendo as malas

Ter uma filha adotiva era um sonho.

Para mim, a história era a seguinte: minha criança, Perci e eu combinamos de nos reencontrarmos nesta vida.

Por impossibilidade de termos filhos biológicos, nossa filha viria por outra forma, demonstrando já de cara seu imenso amor e generosidade. Baita malabarismo esse para chegar até nós.

Juntos, percorreríamos um caminho até que isso acontecesse, na hora exata em que estivéssemos todos prontos, em absoluta sincronia.

Romantismo? Pois foi assim. E tenho tanta certeza que chego a rir da crença sobre a aleatoriedade da vida.

Já era a Laura. Sempre foi.

Se acredito no acaso? Claro! Para a marca de suco nova porque a preferida estava em falta, para a gasolina que acabou porque sou distraída…

Aos 37 anos começava minha viagem. E a Laura, a dela.

Às vezes imagino que ao começar a fazer nossas malas para nos reencontrarmos, conversamos muito à noite, enquanto eu dormia. Fizemos planos, contei seus apelidos, combinamos a cor do seu quarto, se eu deixaria passar batom logo cedo…

Uma coisa que adorava em tudo isso? Não saber como seria essa garotinha. Gostava de imaginá-la de vários jeitos, como se isso fizesse parte da surpresa. Gordinha, morena, magrinha cabeluda, séria, risonha. Nos meus melhores sonhos não imaginava que anos depois chegaria em meus braços um bebê tão encantador como a Laura. Bem, falarei muito sobre ela, mas depois.

Com tantos filhos adotados, o Perci desconhecia o processo nos dias de hoje, as coisas mudaram muito…e eu, sabia menos ainda.

O primeiro passo foi procurar o Forum de Cotia, cidade onde residimos.

Por puro preconceito, fiquei insegura em ter que dar entrada em Cotia. Sabe aquela coisa? Se em São Paulo as coisas são como são, imagina aqui? Putz, nesta hora queria morar ao lado da Praça João Mendes.

Outro medo foi o sonho da minha vida depender do Governo. Sou brasileira e, como muitos de vocês, descreio do país, da correção das coisas por aqui. Será que o tal cadastro nacional funcionava? Será que a Assistência Social não botava um dedinho na hora de encaminhar uma criança? Simpatia por um ou outro casal não interferia de verdade no processo?

Além disso, com todo respeito aos amigos funcionários públicos, sempre trabalhei no setor privado e, de fora, a impressão que a gente tinha é a de que nada funcionava. O ritmo pautado por recessos, troca de juízes e até as dependências do Fórum, decadente, com a sua papelada empilhada e aparente, tudo era um grande gerador de ansiedade. Desse jeito tartarugas escapam. E se minha filha escapasse?

Demos entrada na intenção de adoção, preenchendo formulários relativamente simples, que seriam depois protocolados e resultariam em uma entrevista com uma psicóloga. Tudo naquele ritmo que vocês conhecem.

Perci e eu somos dois controladores por natureza, mas aceitar o processo como ele se apresentava, resignar-se, confiar, foi a única saída.

Neste momento minha irmã me ajudou com uma pergunta: E por que é que você acha que ao tentar engravidar as coisas estão sob nosso controle?

Sabedoria de mãe de cinco filhos.

No próximo post conto mais!

Logo a gente se encontra, meu amor.

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