Apfelstrudel e um Conto de Grimm

Já contei para vocês que nunca gostei de viajar a trabalho. Achava chato, aquelas intermináveis agendas, jantares à noite, quando o que eu queria mesmo era descansar. E o pessoal em geral era animado, queria a programação completa.

Meu programa preferido depois das reuniões de trabalho era ir pro hotel. Eles geralmente eram ótimos, diga-se de passagem (disso não posso reclamar). Esticar as pernas naquelas camonas macias e pedir comida no quarto era o que eu sempre queria. Há quem diga que era desperdício, eu adorava. Fazer o quê?

Numa fase da minha vida em que eu sentia que precisava estar em São Paulo, pela ilusão de poder consertar o amor trincado quando se está mais perto, tive que ir à Suíça para uma longa viagem.

Aquilo foi um suplício pra mim. Fazer um curso pensando na minha vida descarrilhando por aqui, e depois ainda ter que dar um pulo na Alemanha para uma reunião com um cliente era tudo que eu não precisava.

O cliente era a Henkel, fabricante de produtos de limpeza, alemã, osso duro de roer, a quem tentávamos agradar para estreitar ainda mais nossas relações comerciais, cuja sede ficava na cidade de Düsseldorf. No dia em que meus colegas do curso voltavam para suas casas, lá ia eu para o aeroporto rumo à Alemanha, toda triste.

O frio era muito, pleno inverno. Eu usava um sobretudo pesadíssimo e ainda carregava um laptop antigo, pesado, um desconforto só.

Bastante desanimada por ver que subiria mais alto no mapa que a televisão do check-in mostrava, ao invés de descer rumo ao Brasil, soube que teria que correr muito até o portão de embarque para não perder o vôo.

Corri feito louca, chacoalhando aquele maldito computador por um interminável corredor, onde fiz o favor de pisar na alça da maleta e voar pelo saguão. Foi um vôo espetacular, finalizado com um peixinho de vôlei. Me ergui altiva, evitando olhares e entrei ensopada de suor no avião.

O vôo foi tranquilo e ao chegar em Düsseldorf fiquei mais contentinha com meus planos de pés esticados, comida no quarto….

Tudo teria sido assim se minhas malas não tivessem sido extraviadas. E se no aeroporto houvesse algo aberto. E se a companhia aérea tivesse o kit sobrevivência para me entregar nesses casos com camiseta, escova de cabelo, essas coisas. E se o idiota do funcionário da companhia aérea tivesse sido pelo menos educado. Sim, Alemanha também tem seus dias de Brasil.

Fui para o hotel melada da viagem, com a perspectiva de fazer a tal reunião com o cabelo em péssimas condições. Tomar banho e recolocar a roupa amarfanhada também era de doer. Se você é leitora, sabe como a situação pode ganhar contornos trágicos.

Era tarde, não havia comida no hotel e meu jantar se resumiu a uma lata de castanhas. Sentei na cama, já aos prantos por tudo, prestes a continuar ali até meus olhos incharem e eu passar aquela vergonha no dia seguinte, quando tiro meus sapatos, minhas meias e coloco meus pés no chão.

Aí, o milagre aconteceu.

Se você ainda não experimentou um chão aquecido, você não sabe o que é aconchego. Aquele calor inesperado, aquele conforto, caiu como um colo de mãe pra mim. Fiquei ali, parada sentindo o piso de tijolinhos na minha pele, acreditando que tudo tinha jeito, até minha vida.

Fui transportada para uma daquelas casinhas bucólicas do interior da Alemanha, onde me serviriam um apfelstrudel ao som de um conto de Grimm. Fiquei ali nem sei por quanto tempo, com os olhos fechados.

Pronto, de volta à vida! Tomei um banho e dormi como uma criança.

No dia seguinte, como previsto, fui à reunião com o melhor visual possível naquelas condições, ou seja, péssima.

Meses depois, meu colega alemão veio ao Brasil e me encontrou em muito melhor forma, arrumada, bonitinha ou, pelo menos, eu mesma. E me disse: tem certeza de que era mesmo você?

Quase matei o infeliz.

Apfelstrudel e Contos de Grimm

 

  1. Alexandre Guimarães

    Sua capacidade de explorar naturalmente detalhes do cotidiano que, para a maioria das pessoas, passariam despercebidos, é impressionante.

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