Adoção: Capítulo IV – Ring Ring. O telefone tocou!

 

Não sei se já comentei, mas tenho cá minhas intuições de vez em quando. Em geral, elas me são bem úteis, embora às vezes de um jeito meio torto.

Janeiro de 2013. Eu, totalmente convencida de que algo fabuloso aconteceria no ano, dessas coisas capazes de mudar nosso destino. Avisei meu marido, o Perci, pra ficar preparado. A coisa ia ser grande. Ele, que me conhece e sabe do potencial das minhas predições, levou a sério.

Na falta de perspectiva mais clara, concluí que seria a ganhadora do grande concurso de Páscoa da Cacau Show. O 1 milhão anunciado para quem comprasse seus ovos entrariam na minha conta. Era isso. Claro e cristalino.

Comprei ovos e mais ovos da marca, enchi a casa de chocolate, muito, muito chocolate. As urnas da loja perto de casa ficaram repletas de cupons preenchidos com muita fé e eu aguardava a chegada do sorteio, em maio, feliz da vida.

No dia 6 de maio tive que ir a São Paulo para uma reunião pela manhã. Saí de casa resignada, enfrentando o trânsito da Raposo Tavares, entristecida por mais um dia das mães que se aproximava. Pensei em ligar para o Fórum, dar um pulinho lá no final da tarde para saber se havia alguma novidade, mas logo desisti. Para que procurar sarna pra me coçar? Motivos pra ficar mais desanimada justo naquela semana?

Voltei pra casa após o almoço e meu marido, espirituoso como sempre, foi logo dizendo:
– Chegou depois do almoço. Bem feito, perdeu o telefonema. Ligaram do Fórum.

Eu, que já não estava para brincadeira, fiquei uma fera. Como ele podia brincar com uma coisa dessas? Falta de sensibilidade! Demorei alguns segundos até ouvir o que ele falava. De fato o telefone tinha finalmente tocado para nós. Nossa menina havia chegado.

Tremendo, peguei o papelzinho com o telefone anotado da Assistente Social. O que escutava era um sonho. Nossa menininha havia chegado e devíamos ir ao Fórum dois dias depois para conversar sobre ela e visitá-la, se fosse o caso. Lógico que era o caso!

A Assistente Social dizia as coisas de praxe. Há uma menina, de apenas 3 meses, nós éramos o casal da vez na fila…E eu só conseguia perguntar: como é a nossa menina, fale dela. A resposta para todas as perguntas foi taxativa e eu nunca esquecerei:

– Não podemos adiantar detalhes por telefone. A única coisa que eu posso dizer é que sua menina é uma bolinha perfumada. Você só não se apaixonará por ela se não quiser ser mãe.

Chorei, chorei, chorei muito até conseguir me acalmar. E assim foi por dois dias, até o nosso encontro. Eu, sem comer e dormir por dois longos dias.

No dia 8 de maio, lá estávamos Perci e eu no Fórum, para saber sobre a história da nossa filha, um passo exigido pela lei, que pais adotivos conheçam a história da criança. Depois de conhecer detalhes sobre a curta vidinha dela, fomos os três, a Assistente Social, meu marido e eu para a casa de abrigo onde ela se encontrava.

Se eu tentar descrever a ansiedade, a emoção de entrar naquele quarto, onde ela dormia em um berço junto com a melhor amiguinha de também 3 meses, não conseguirei. O trajeto da porta do quarto até o berço durou uma eternidade. Saber que minha vida se transformaria em alguns passos, que aquela menininha era a minha garotinha, esperada por uma vida inteira, foi de longe a maior emoção da minha vida.

Chegamos devagarinho, meu marido e eu, perto da nossa filha e nos apresentamos falando baixinho. Ao nos aproximarmos do berço, ela acordou, abriu seus olhos verde azulados e deu um sorriso sereno, como se já nos esperasse.

As cuidadoras do abrigo nos disseram que ela estava cansada, pois na noite anterior ficou acordada, rindo à toa e feliz, por nada ou por nós todos.

Peguei minha filha no colo, cochichei no seu ouvido:
– Oi, meu amor. Mamãe chegou. Pronto, agora você já está com a gente.

Foram precisos mais dois dias, para finalmente poder buscá-la no Fórum e trazê-la pra nossa casa, por conta da papelada a ser encaminhada.

Na sexta-feira do dia 10 de maio ela chegou linda, de laçarote e perfume no Fórum, nos braços das freiras que tanto a amaram nos primeiros meses, direto para as nossas vidas.

Não ganhei 1 milhão. Ganhei o amor da minha vida, na véspera do Dia das Mães, que passei agarrada na minha filha.

O dia em que ele tocou pra mim

 

  1. Eliane Lee

    Cade o resto da historia?! Amei ate aqui… eu tambem estou esperando meu telefone tocar… pra minha menina chegar…

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