Adoção: Capítulo III – Tic Tac

A papelada da adoção foi encaminhada com sucesso. Meu marido e eu aprovados como candidatos a pais adotivos. A escolha do perfil da nossa filha foi feita. Entrávamos agora na fase que eu não imaginava seria tão dura, a espera. Hoje quando olho para trás sabe que chego a sentir até uma certa pena de mim mesma? Do quanto sofri, me decepcionei, chorei.

A estimativa para a espera era de dois anos, em média. Bebê – menina era pão quente na padaria, o desejo da maioria dos casais.

Eu me sentia grávida. Fazia planos apostando na minha estrela, acreditando que minha menina chegaria antes disso. Assim que foi dada a largada já fazia planos sobre licença maternidade, para a nova rotina, aguardando um telefonema a qualquer momento. Mas durante o primeiro ano o telefonema não aconteceu e minha ansiedade cresceu com o silêncio do Fórum. Mesmo assim tudo ainda ia bem, estávamos dentro da estimativa dos dois anos.

Conhecidos que haviam passado pela mesma experiência da adoção recomendavam que de quando em quando eu desse as caras no Fórum, me fizesse lembrada, como se a chegada do bebê dependesse da boa vontade das assistentes sociais e não da ordem na fila do cadastro nacional. E, embora isso me parecesse uma loucura (comprovada depois), por via das dúvidas, lá ia eu ao Fórum uma vêz por mês.

As visitas ao mesmo tempo que me faziam bem, porque me aproximavam das assistentes sociais e porque eu era bem recebida, também me faziam muito mal. Invariavelmente a reposta era a mesma, havia outros casais na nossa frente. A fila em Cotia parecia não andar, surgiam poucas crianças e os casais permaneciam parados na fila como naqueles jogos de casinhas em que os dados te deixam de castigo de vez em quando.

Eu voltava para a casa arrasada e demorava a me recompor. Essa foi minha rotina por um bom tempo. Até que resolvi fazer o que não recomendo a ninguém. Passei a visitar uma casa de abrigo conhecida, a conviver com crianças afastadas de suas famílias, algumas aguardando adoção.

Minha fé e a tola ilusão me fizeram acreditar que se houvesse uma menininha para adoção no abrigo, nós poderíamos contar com o apoio do juizado. A realidade se provou totalmente contrária e o desgaste para nós foi inevitável.

Mais de dois anos haviam se passado e depois de tanto sofrimento me resignei e passei a esperar em casa, quieta.

A essa altura, vocês podem estar se perguntando o por quê de tanta demora. Eu mesma tardei a compreender.

De um lado há orfão brasileiro, que tem família, muitas vezes pais. São filhos da pobreza e de suas conseguências. Muitas crianças de abrigos vivem um processo de desligamento de suas famílias de origem por diversos motivos. Esse desligamento, chamado destituição do pátrio poder, é um processo longo, pelas legislação brasileira, pela lentidão do nosso Judiciário, agravada às vezes pela resistência da família que luta pela guarda da criança. Sem contar que a maioria das crianças é mais velha e tem irmãos.

Do outro lado, os casais, que preferem bebês e meninas. Isso sem falar da cor. Pronto, a receita para o desencontro e frustração de ambos os lados.

Durante todo esse tempo havia um lado meu que acreditava, sabia que no tempo certo surgiria minha menina, que Deus haveria de achar um jeito para nos encontrarmos. E outro que começava a aceitar o fato de que talvez a maternidade não acontecesse para mim.

Foram precisos 5 anos para que a Laura chegasse, seguindo rigorosamente a lei e a fila de espera. Para que eu recebesse aquele telefonema. E ele veio na véspera do dia das mães de 2013.

Tempo, tempo, mano velho

 

  1. Elio Galli Filho

    Me emocionou, Lívia!

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