10 minutos pra decidir uma vida

Se tem uma coisa que me intriga é saber o quanto pequenas escolhas definem nossas vidas.

Tem gente que acredita que o destino é traçado por grandes linhas, independente das pequenas escolhas. Como se as pequenezas existissem somente para preencher os dias, sem que tenham alguma importância no desenho dos fatos. Mais ou menos como Maizena, que engrossa cremes e mingaus sem protagonismo algum.

Para essas pessoas, o destino vai ajeitando as imprecisões da vida, rearranjando datas, locais e horários, numa trabalheira desgraçada para fazer vingar o que já está previsto. Para outras, mínimas escolhas têm o poder sobre o encadeamento dos dias.

Acordar 10 minutos mais tarde, por exemplo, pode te fazer perder o ônibus onde você encontraria uma pessoa, que te faria um convite para uma festa, em que você encontraria o homem da sua vida, com quem teria um filho chamado Antônio, que nasceria em dezembro, mês em que você deixaria de estar em Buenos Aires, cidade em que encontraria sua amiga de infância para um último abraço, antes que ela morresse.

Eu sou uma mistura dos dois. Explico.

Acredito nas minúcias que impactam a vida. E que 10 minutos definem tudo. Que o desarranjo que vem do atraso é certo. Porém, também acredito que rapidamente o destino se conforma com a situação e cria novos planos, que passam a ser impactados por mais 10 minutos de atraso.

É inútil eu sei, mas às vezes me pego pensando no implacável “e se…” um condicional que pode nos tirar o sossego.

E se naquele dia eu tivesse conseguido amparar minha mãe antes da sua queda? Ela provavelmente estaria andando agora. Eu nunca pude saber. Nessas horas, prefiro acreditar na primeira opção, de que destino traçado é destino cumprido.

Encerro a crônica de hoje com um acaso em minha vida, no qual uma porta de elevador teve papel fundamental.

Uma porta de elevador se fechando e definindo os meus cinco anos seguintes. Uma porta que, caso não tivesse se fechado, teria me dado preciosos minutos para me recompor de um choque.

Em 2001, meu atual marido, então somente um colega de trabalho, falava comigo por uma porta de elevador que se fechava. Era só um tchau descompromissado depois de uma reunião.

Naqueles segundos em que a porta ia se fechando, eu entregava a ele meu convite de casamento (no caso, com outra pessoa). Ele, ao mesmo tempo em que recebia o convite, se declarava apaixonado (no caso, por mim). Eu, em choque, ia vendo a porta se fechar e ele ir embora.

Tenho certeza de que as coisas teriam sido diferentes se a escolha do local para o desabafo tivesse sido mais prosaica, tipo mesa de restaurante. Com mais conforto e um pouco mais de tempo para me refazer, eu talvez tivesse mudado o rumo de tudo que veio depois. Mas de supetão, daquele jeito, foi o que foi.

Somente em 2005 , devidamente instalados em uma mesa de trattoria, ao sabor de um nhoque ao sugo, haveria outro momento para falar de amor. E uma chance para o casamento que aconteceu logo em seguida.

Hoje resolvi escrever essa crônica. E se eu já a tivesse escrito semanas atrás? Seria diferente? Ou por escrevê-la hoje coisa boa vem por aí?

 

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